Monica é ativista do movimento LGBT no Rio de Janeiro - Reprodução Instagram
Monica é ativista do movimento LGBT no Rio de JaneiroReprodução Instagram
Por iG
Publicado 19/08/2020 14:51 | Atualizado 19/08/2020 14:59

Rio - Depois do dia 14 de março de 2018, a arquiteta Monica Benicio teve que aceitar a alcunha de “viúva de Marielle Franco” querendo ou não. Em meio a uma situação tão delicada de luto e de luta por justiça, Monica conseguiu abraçar a posição com força e orgulho. Se tornou um exemplo e trilhou um caminho próprio, inspirada pelas ideias e trajetórias da vereadora e esposa, hoje também é ativista da luta pelos direitos de mulheres faveladas e LGBTs. 

Galeria de Fotos

Monica afirma que Marina (à esq) é muito parceira na luta por justiça por Marielle e isso é muito importante Reprodução Instagram
Marielle Franco foi assassinada em 2018 Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Antonio Neto e Marinete da Silva, pais de Marielle, pedem justiça Cléber Mendes
Monica é ativista do movimento LGBT no Rio de Janeiro Reprodução Instagram
Marielle: busca por justiça Divulgação
Monica Benicio, viúva da vereadora Marielle Franco Reprodução / Internet
Os pais de Marielle na missa celebrada na Igreja da Candelária Estefan Radovicz / Agência O Dia
Marielle e Anderson são homenageados no local onde foram assassinados, no Estácio, Zona Norte do Rio Kelly Duque / Arquivo / Agência O Dia
Rio, 14/03/2019 - AGÊNCIA DE NOTÍCIAS - PARCEIRO - Ato público em frente à Câmara Municipal do Rio, nesta quinta-feira, 14, lembra um ano da morte da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes - Foto: Paulo Carneiro/Parceiro/Agência O Dia Paulo Carneiro/Parceiro/Agência O Dia
Manifestações acontecem em diversos pontos do Rio Reprodução / Internet
Marielle e Mônica namoravam desde 2004 Reprodução / Instagram
Em carta, Agatha Reis lembra os momentos de dor e saudade ao longe de 365 dias sem o companheiro Estefan Radovicz / Agencia O Dia
Marielle Franco e Monica Benicio Reprodução
Marielle Franco e Monica Benicio Reprodução
Mônica Benício (à direita), viúva de Marielle Franco, participou ontem do desfile da Orquestra Voadora, que homenageou a vereadora morta Márcio Mercante/Agência O Dia
Viúva de Marielle, Mônica Benício, desfilará com a cantora Rosimary Reprodução INTERNET
Marielle foi morta em 14 março de 2018, junto com Anderson Gomes Divulgação
Marielle e a filha, Luyara Santos Arquivo Pessoal
A viúva de Marielle Franco, Mônica Benício, refaz Grafite em homenagem à parlamentar, na comunidade Tavares Bastos Fernando Frazão / Agência Brasil
Marielle foi assassinada com Anderson Gomes em março de 2018 Reprodução / Mídia Ninja
O deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ) Agência O Dia
Talíria Petrone e Marielle Franco Reprodução Instagram
A vereadora Marielle Franco foi assassinada a tiros no dia 14 de março de 2018, atentado que também matou o motorista Anderson Gomes Renan Olaz / Câmara Municipal do Rio
A viúva de Marielle, a arquiteta Mônica Benício, e a diretora executiva da Anistia Internacional, Jurema Werneck Paulo Carneiro/Parceiro/Agência O Dia
Monica Benício, esposa de Marielle Franco Paulo Carneiro/Parceiro/Agência O Dia
Mônica Benício Alexandre Brum / Agência O Dia
Viúva de Marielle trabalha como assessora parlamentar da liderança do Psol na Câmara dos Deputados Alexandre Brum / Agência O DIA
Vereadora Marielle Franco Mário Vasconcellos / Câmara Municipal do Rio
Marinete Silva, mãe de Marielle Franco Estefan Radovicz / Agência O D
A equipe que investiga a morte de Marielle Franco ganhará reforço de dois delegados e cinco investigadores Renan Olaz / DIVULGAÇÃO
Mônica denunciou ameaças na Organização dos Estados Americanos Daniel Castelo Branco
Rivaldo Barbosa (E) se reuniu com parentes de Marielle, como a viúva Mônica (C) e a filha Luyara (D). Foto: Daniel Castelo Branco
A arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, é recepcionada pelo deputado Marcelo Freixo no prédio da Chefia da Polícia Civil para saber de informações do assassinato da vereadora. Daniel Castelo Branco/ Agência O Dia
Marielle Franco e Anderson Gomes foram homenageados em diversos pontos da cidade Severino Silva

Nascida e criada no Complexo da Maré, se descobriu lésbica após conhecer Marielle Franco, com 19 anos. “No início, foi difícil. A gente não tinha relação de amizade com muitos LGBTs na época (em 2005). Tínhamos alguns amigos gays, mas pouquíssimas amigas lésbicas. Então, não tínhamos muitas referências. Eu e Marielle tínhamos muito medo de andar de mãos dadas na favela”, conta a arquiteta.

As famílias também não aceitaram bem o relacionamento, especialmente a de Marielle, que era muito católica, então -- como para grande parte dos LGBTs -- a fase de se descobrir e se assumir foi muito dolorosa para o casal, segundo Monica. Mas diz que, apesar disso, também houve espaço para o prazer do autoconhecimento e de um novo relacionamento de muito carinho e afeto.

“Ao longo da relação, eu e Marielle acabamos terminando e voltando muitas vezes. Nas vezes que a gente terminava, a Marielle tinha relacionamentos com outros homens, mas eu fui entendendo que aquilo ali era de fato minha identidade, que eu era uma mulher lésbica, que gostava de mulheres. Uma mulher amando mulheres."

Ao se afirmar como uma mulher lésbica, sofreu ainda mais preconceito da família, incluindo os próprios pais, mas conta que, com o tempo, conseguiu mudar essa realidade. “Hoje, tenho não só apoio, mas respeito dos meus pais e da minha família. Minha mãe vai na parada LGBT comigo todos os anos. Teve ano que eu não pude ir e ela foi”, diz Mônica.

“Sentia que de alguma forma estava traindo a Marielle”

Após quase 14 anos de um relacionamento intenso que teve um fim tão trágico e repentino, Mônica diz que não foi fácil seguir em frente, especialmente por ser uma das principais pessoas a cobrar uma resolução para o caso do assassinato de Marielle e Anderson Gomes. Se abrir para uma nova experiência amorosa, ela conta, parecia difícil, mas, há sei meses, ela e a cantora Marina Íris começaram a namorar.

“Quando eu comecei a namorar a Marina, era muito difícil de lidar, porque tem uma questão do luto que traz culpa. A culpa de quem ficou, a culpa de seguir e eu sentia que, de alguma forma, estava traindo a Marielle”, afirma. “Mas a Marina é muito parceira na luta por justiça para Marielle, que não é uma luta individual, personalista. Pelo contrário: é uma luta pela democracia, por justiça. Alguns dias são mais difíceis do que outros, mas a Marielle ainda é uma figura que é muito central na minha vida, seja por essa questão da luta por justiça ou por todo significado da nossa história de amor.”

Quando o relacionamento foi a público, por meio de uma nota sensacionalista, como Monica define, os comentários negativos foram muitos. “O machismo, a sociedade patriarcal, quer colocar a mulher de luto nesse lugar do abandono, como se a gente tivesse que viver em eterna solidão e sofrimento para justificar e legitimar nossa história de amor anterior. E estamos falando de um momento muito duro, porque uma mulher está em viuvez porque perdeu uma pessoa que amava”, explica Monica.

Para a carioca, a lesbofobia amplia ainda mais esses preconceitos e faz uma comparação: “Lula, que teve a dona Marisa como companheira durante muitos anos, começou a namorar quando estava preso. Quando saiu, foi aclamado e todo mundo gritava 'beija! Beija!', [para que ele beijasse a namorada]. A gente tem que defender que isso seja o direito de todo mundo.”

Mas Monica diz que muitas pessoas ficaram felizes por esse novo capítulo na vida da ativista e compreendem que não há desrespeito com a memória de Marielle. “A gente precisa falar sobre esses gestos de afeto que ressignificam nossas esperanças cotidianas, que são essenciais para a gente.”

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