Projeto Nóiz promove educação e cultura na Cidade de Deus

Com dois anos de atuação na comunidade, a ONG vem mudando o cenário socioeducativo da região

Por Maria Clara Matturo*

ZONA OESTE - PROJETO NÓIZ
ZONA OESTE - PROJETO NÓIZ -

Unindo educação, arte e consciência social, o projeto social Nóiz está há dois anos construindo um novo cenário para o futuro da Cidade de Deus. A iniciativa nasceu entre quatro amigos que queriam depositar um novo olhar sobre a comunidade, acreditando na evolução dos moradores por meio da cultura, esporte e capacitação. Atualmente, o Nóiz oferece aulas de reforço escolar, cursos profissionalizantes e está prestes a lançar a primeira biblioteca comunitária.

André Melo, de 44 anos, é publicitário e presidente da ONG. Ela conta qual a proposta: "Somos quatro amigos, participamos de um outro projeto e saímos pra montar o Nóiz com uma filosofia diferente. Temos um outro olhar, que é o de acreditar nas pessoas e na evolução delas através da cultura, esporte, educação e capacitação, independente das condições sociais. Por exemplo, se vamos levar um palhaço em uma atividade infantil, o que esse palhaço vai contar? Como vamos aproveitar essa oportunidade? Nada é só pela diversão".

Além da motivação do grupo, André revela que a iniciativa de inclusão era uma causa pessoal para ele, que tem um filho autista. "Começamos a receber demandas de crianças com questões, uma delas é atendida pelo médico do meu filho e já teve uma melhora considerável, estamos recrutando uma equipe que vai nos dar mais apoio ainda".

Em dois anos de atuação, o Nóiz tem muita história pra contar. A primeira sede da ONG era feita de madeira e ficava na região do brejo, área mais carente da comunidade, mas em momento nenhum a dificuldade foi impasse para os voluntários. "Nós não somos da comunidade, então foi mais difícil ainda conquistar um espaço. Começamos com um pequeno espaço no brejo e agora temos um prédio com dez salas no Karatê, que atende toda a região da Cidade De Deus. Nós conquistamos a confiança deles sem nenhum vínculo político ou religioso", orgulha-se André.

Como muitas outras iniciativas, o projeto sobrevive com a ajuda dos próprios voluntários e parceiros, sem nenhum apoio do governo. Aqueles que tiverem interesse em ajudar o caminhar da ONG podem se voluntariar para as ações do Nóiz ou fazer uma doação espontânea. Todas as informações estão disponíveis no Instagram deles, @noizprojetosocial.

A pandemia e o 'caixote do saber'

ZONA OESTE - PROJETO NÓIZ - Nóiz

Durante o período de isolamento social, André se encontrou em uma situação difícil e precisou oferecer assistência básica aos moradores da comunidade, o que não é o objetivo do projeto. "Entramos na comunidade para conscientizar as pessoas, contratei uma bicicleta de som e distribuímos folhetos de conscientização, mas nos deparamos com um problema muito maior, que é a fome. Paramos tudo para fazer campanhas de cestas básicas, entregamos mais de 20 toneladas de alimentos, mais de 5 mil máscaras e fizemos quatro ações de sanitização para limpar alguns territórios dentro da Cidade de Deus", relata.

Apesar do momento delicado, com a pandemia nasceu um dos projetos xodó do Nóiz, o 'Caixote do Saber'. "A favela infelizmente não tem como viver o isolamento social. Vendo a ociosidade das crianças pintou a ideia do 'Caixote do Saber'. Nós pensamos, já que as crianças estão em casa, vamos oferecer leitura. Um voluntário nosso constrói esse caixote e colocamos em territórios diferentes com livros infantis e gibis. Já temos cinco caixotes em cinco lugares diferentes, a ideia é colocar dez. A cada 15 dias percorremos os caixotes para ver as condições e colocamos livros novos. Parece que estamos colocando o caixote pela primeira vez, as crianças ficam super animadas".

Suporte psicológico para todos

O 'caixote do saber' oferece livros infantis e gibis em diversos pontos da comunidade - Nóiz

Dentro da ONG existe o projeto 'Humanóiz', responsável por coordenar toda a parte psicológica e emocional da comunidade. A psicóloga Luana Lagos, de 32 anos, é a responsável pelo setor e relatou como foram os últimos meses: "Durante a pandemia fizemos acolhimento via WhatsApp, convidei duas amigas e começamos a fazer. Recebemos um retorno muito bom, mas agora queremos começar os aconselhamentos no início de setembro, porque não dá mais pra esperar".

Além dos atendimentos, a ONG propõe encontros para estimular o debate entre os jovens. "Eu percebia que a comunidade precisava de um suporte emocional e psicológico, quando eles ficaram sabendo que tinha uma psicóloga na ONG começaram a nos procurar. O primeiro projeto que eu realizei lá foi a roda de conversa, trazendo um tema que tinha ligação com os acontecimentos da comunidade, e debatemos sobre isso. A primeira roda foi sobre o Rap da Felicidade, tinha muitos adolescentes e foi incrível, saímos com muitos assuntos relevantes", relembra Luana.

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