Manifestantes realizam ato após morte de primas na Baixada Fluminense - Aline Cavalcante / Agência O DIA
Manifestantes realizam ato após morte de primas na Baixada FluminenseAline Cavalcante / Agência O DIA
Por Aline Cavalcante
Rio - Centenas de familiares e amigos protestaram na tarde deste domingo contra a morte das pequenas Emily Victória Silva dos Santos, de 4 anos, e de Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, 7 anos, vítimas de bala perdida, na Praça do Pacificador em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Com cartazes e palavras de ordem, os manifestantes pediam por justiça. As primas foram mortas na comunidade do Barro Vermelho, em Jardim Gramacho, na sexta-feira (4), enquanto brincavam na porta de casa.
"Chega de matar nossas crianças, matar inocentes e trabalhadores. Não é porque moramos em comunidade que somos bandidos. Por que atirar em duas crianças? Mataram minhas princesas, dois anjos. Poderia ter sido eu a levar este tiro porque eu passo ali todos os dias. Eu preferia que tivesse sido eu levar este tiro do que passar por esta dor. Hoje eu acordei e minha neta não estava lá pra me dar bom dia para me pedir a bênção, não tenho mais minha bailarina. Ela era meu tesouro, foi uma neta muito esperada. Tínhamos um futuro guardado pra essa menina. E agora, quem vai me devolver ela?", desabafou Lídia Moreira da Silva Santos, avó de Rebeca.
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Ana Lucia da Silva Moreira, mãe Emily reforçou que no momento em que as duas crianças foram atingidas não havia confronto. Ela acusa a Polícia Militar pela morte das meninas e de não terem prestado socorro.
"Criança tem direito de brincar na rua, correr, subir em árvore sem que o fim seja a morte. Atiraram na cabeça de uma criança, um tiro de fuzil na cabeça da minha filha, Emily Victória. Não tinha confronto, não tinha operação, arrastão, nada. Atiraram, a polícia atirou e matou elas e não socorreram elas. Foi a comunidade, meus vizinhos, amigos que ajudaram a socorrer as duas".
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Ana Lucia disse ainda que vai lutar por justiça. "Não somos lixo, minha filha vai ter justiça. Vou lutar por elas, vou até o fim pelos meus filhos, pela minha sobrinha".
Pessoas que estiveram no local gritavam por justiça enquanto carregavam cartazes com dizeres como: "parem de matar nossas crianças", "vidas negras importam" e "a comunidade hoje chora". 
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Apoio de diversos movimentos
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Líderes de diversas ONGs e movimentos da Baixada Fluminense, Rocinha, Complexo do Alemão e de outras comunidades do Rio, estiveram na manifestação prestando apoio à família de Rebeca e Emily. 
"Estão nos matando de diversas formas. Conheci esta família em ação realizada na comunidade durante a pandemia entregando cesta básica porque eles queriam que a gente morresse de fome, mas a gente dá um jeito pra não morrer de fome, mas a polícia vem e mata a gente de tiro. Quando não é tiro é falta d'água, e quando não é falta d'água a gente não tem emprego. Chega, não vamos aceitar mais", protestou Wesley Teixeira, do Movimenta Caxias.
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Presente no ato de protesto, Antonio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz, falou sobre a omissão do governo. "Acompanho estes casos desde 2007 e até aqui foram 79 crianças foram vítimas de bala perdida no Rio de Janeiro, só este ano foram 12. Em todos esses anos nada mudou: a autoria dos crimes jamais elucidada, os assassinos jamais punidos, as famílias permanecem ignoradas pelo poder público e nenhuma mudança ocorre em termos de política para segurança pública".
Para Antonio Carlos, a violência que atinge as comunidades é ignorada pelas autoridades. "A maioria das crianças que tiveram a vida interrompida por bala perdida são, em sua maioria, moradores de favela, meninos e meninas pobres.  Nisso reside o motivo pelo qual parte da sociedade e do poder público ignorarem estas mortes. Temos que nos organizar a fim de que o sangue do pobre custe caro para o poder público. Não podemos aceitar mais isso".

Policiais não prestaram socorro
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A avó de Rebeca contou que ouviu os disparos e viu o momento em que policiais militares saíram do local em uma viatura. Ela diz que viu a sobrinha baleada na cabeça e sem vida e acusa policiais de atirarem e não prestarem socorro às meninas.
"Eu desci do ônibus e ouvi os disparos. Vi que tinha uma viatura da PM que saiu logo depois. A Polícia chega atirando, não pensa nos moradores das comunidades. Eram crianças que estavam brincando na porta de casa", disse Lídia da Silva Moreira Santos.
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Em nota, a Polícia Militar disse que policiais estavam em patrulhamento, quando disparos de arma de fogo foram ouvidos, mas negou disparos por parte dos policiais militares.
A Polícia Civil diz que a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) instaurou inquérito para apurar a morte de duas crianças, de 4 e 7 anos. Os cinco policiais militares que estavam na região foram ouvidos e tiveram cinco fuzis e cinco pistolas apreendidas para realização de confronto balístico. Os agentes estão em diligências para apurar as circunstâncias do fato.