"E assim, sigo viajando pelas minhas memórias e constatando as mais diferentes belezas e lutas de mulheres ao meu redor. Enxergo e também me identifico com seus dilemas, questionamentos e sonhos"
"E assim, sigo viajando pelas minhas memórias e constatando as mais diferentes belezas e lutas de mulheres ao meu redor. Enxergo e também me identifico com seus dilemas, questionamentos e sonhos"Arte Kiko
Por ANA CARLA GOMES
Pelos caminhos onde andei, vi várias potências de vida no universo feminino. Olho para o esporte, que me permitiu realizar sonhos no jornalismo, e as lembranças são inúmeras. Agradeço ao privilégio de ter conhecido Aída dos Santos, com 84 anos recém-completados, e uma história de pioneirismo na bela biografia. Negra, criada no Morro do Arroz, em Niterói, foi a representante solitária do universo feminino na delegação brasileira nos Jogos de Tóquio, em 1964. Faxinar a casa foi a sua rotina antes da última seletiva olímpica, no Maracanã, e sua medalha, apesar de tantas dificuldades, foi o quarto lugar no salto em altura na capital japonesa.

Aída teve três filhos, entre eles Valeskinha, campeã olímpica de vôlei em Pequim (2008), na mesma Seleção em que Fabiana Alvim se consagrou. Criada no Irajá, na Zona Norte do Rio, Fabiana virou a talentosa Fabi, que duplicou o ouro nas quadras. Já aposentada, casou-se com Júlia e as duas são mães da pequena Maria Luiza, de um ano e oito meses. Hoje, inclusive, a casa do trio está em festa: Fabi completa 41 anos, na véspera do Dia Internacional da Mulher.

Xará da filha de Fabi, minha mãe, Maria Luiza, é minha grande referência feminina, agora me guiando de outro plano. Desfilou por aqui seu dom de educar os alunos na sala de aula e os três filhos. E assim, sigo viajando pelas minhas memórias e constatando as mais diferentes belezas e lutas de mulheres ao meu redor. Enxergo e também me identifico com seus dilemas, questionamentos e sonhos.

Algumas lidam com perdas, outras vivem o aperto do coração diante de desafios dos filhos, netos e sobrinhos. Muitas convivem com a dureza do mundo. Outras tantas encontram suporte na luta da farmacêutica Maria da Penha, que há 14 anos batizou a lei que virou instrumento de proteção contra a violência doméstica.

Juntas, todas compartilham o anseio de terem seus desejos bem vivos. Como minha mãe e sua vocação para o Magistério. Como Fabi, Júlia e Maria Luiza, formando uma família. Como Valeskinha e o seu dom para as quadras. Como Aída e o seu sonho olímpico. Como Maria da Penha e a sua luta por dignidade e respeito às mulheres.