Essas recordações me fizeram percorrer um outro corredor, desta vez em direção ao que o esporte me proporcionou numa longa caminhadaArte: Kiko

Ainda não eram 8h quando me levantei da cama na última terça-feira e, já no corredor de casa, ouvi os sons que saíam da tevê ligada no quarto do meu pai. Era a narração do jogo entre Argentina e Arábia Saudita, pela Copa do Mundo do Catar — até aquele momento os hermanos venciam por 1 a 0. Fui ao banheiro, segui para a cozinha e, enquanto tomava o café da manhã, fiquei ouvindo os acontecimentos da partida até a inesperada virada dos sauditas por 2 a 1. Surpresa com o resultado, voltei ao corredor enquanto o narrador aumentava a entonação de voz para falar da primeira zebra do Mundial: “Vai perdendo a Argentina!”
Da televisão, passei os olhos no celular e vi as mensagens de colegas que trabalharam comigo na minha trajetória no jornalismo esportivo. Até hoje nos lembramos de bordões e cenas marcantes e reverenciamos quem já partiu e deixou saudades, com o seu estilo único. Essas recordações me fizeram percorrer um outro corredor, desta vez em direção ao que o esporte me proporcionou numa longa caminhada. É bonito rever em pensamentos como a gente se encontrou, no sentido mais belo, em meio às televisões ligadas na redação, às mensagens que chegavam de repórteres e fotógrafos nas ruas, às dúvidas sobre lances polêmicos e às ideias de pautas que surgiam durante as partidas. A notícia se produz nessa efervescência de uma competição, com todas as suas nuances imprevisíveis. E outras gerações vão herdando essa adrenalina.
Nos estádios, então, os sons se tornam companheiros inseparáveis de um repórter esportivo. Eles vêm do gramado, das arquibancadas ou de entrevistas coletivas. Até o silêncio grita de forma desesperadora, como em derrotas que calam uma torcida inteira. O inesperado do esporte realmente nos arrebata, para a alegria ou para a tristeza.
No entanto, uma das minhas lembranças mais marcantes de uma cobertura não vem do centro da grande festa. Mas dos arredores do bairro Soweto, em Joanesburgo, na época da Copa da África do Sul (2010). Ali, crianças brincavam quase em frente à casa onde morou Nelson Mandela. Um dos meninos, inclusive, vestia uma camisa com o nome do meia inglês Lampard nas costas. O futebol, na sua essência mais pura, é esse esporte que pode ser jogado na rua. Ou que pode ser assistido numa cadeira de praia, como fez certa vez o meu pai, num jogo do meu sobrinho mais novo, num campinho da Baixada.
O esporte, em suas várias modalidades, também é essa magia que nos proporciona conquistas e nos apresenta obstáculos. E reforça em nós o convívio com universos tão únicos. Dessa parte da minha trajetória no jornalismo, aprendi que o caminho não precisa ser necessariamente uma competição. Sempre observei os meus colegas de trabalho, vendo em cada um deles uma habilidade especial e diferente da minha. Na prática, entendi que conviver com as diferenças é um dos nossos maiores desafios. Cheguei até a pensar em escrever que esse é o melhor esquema tático da vida. Mas lembrei que não acredito em jogo nas nossas relações, nem nas amorosas. Creio que sempre ganhamos no improviso de ser quem realmente somos.