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Visitas guiadas às fazendas do interior são mergulho em uma história de riqueza

Café desempenha papel relevante na história da humanidade. Ao longo dos séculos, fruto se espalhou pelo mundo

Por luana.benedito

Rio - De origem etíope, o café desempenha papel relevante na história da humanidade. Ao longo dos séculos, o fruto se espalhou pelo mundo e hoje é cultivado em mais de 70 países, tornando-se mola propulsora de muitas economias. Não à toa, é louvado todo 14 de abril, quando é comemorado o Dia Internacional do Café. No Brasil, o grão também tem grande importância, sendo responsável por uma época áurea da região denominada Vale do Café — o interior dos estados do Rio e de São Paulo —, com diversas fazendas produtoras.

Acima, a Fazenda Vista Alegre, em Valença, aberta à visitação desde 1990Divulgação

Tais propriedades, aliás, hoje em dia, compõem um autêntico passeio turístico-cultural. No interior do Rio, o Vale do Café contempla 32 fazendas históricas, sendo que apenas oito delas oferecem visitas guiadas regularmente, entre outros eventos. Em Barra do Piraí, a Fazenda Alliança e a Ponte Alta; em Vassouras estão a Cachoeira Grande e a São Roque. Na cidade de Paulo de Frontin, a Fazenda de Palmas; em Valença, a Vista Alegre; e em Rio das Flores ficam a Paraízo e a União. Todas, é claro, esbanjam opulência, charme e muita história.

Imponência define muito bem a Fazenda Paraízo, em Rio das Flores, de propriedade do casal Paulo Roberto e Simone Belfort, cuja família está à frente da propriedade desde 1912. Uma das joias do Vale do Café, foi construída entre 1845 e 1853, tendo pertencido à Domingo Custódio Guimarães — o Visconde do Rio Preto.

Aberta à visitação desde o ano 2000 — é preciso agendar com até um dia de antecedência —, a fazenda impressiona pelo casarão de 2.200 metros quadrados, com dois andares e 58 cômodos, um símbolo da opulência agrícola da época. De acordo com Simone Belfort, o interior preserva mobiliário original da primeira metade do século XIX, com tapeçarias, cristais e pratarias, entre tantas outras relíquias.

“Há lustres de cristal, papéis de parede e afrescos do pintor espanhol Villaronga. O engenho de café tem maquinário americano, algo raro na época. Outro atrativo é a iluminação a gás da casa, modernidade que só chegou à cidade de São Paulo quase trinta anos mais tarde. E a cozinha continua da mesma maneira até hoje, fogão à lenha”, enumera, orgulhosa, a proprietária.

Em Vassouras, a Fazenda Cachoeira Grande, originalmente uma propriedade de Francisco José Teixeira Leite — o Barão de Vassouras —, que promove visitas guiadas desde 1999. A atual proprietária Nubia Caffarelli destaca que o local tem várias preciosidades. Entre elas, um exemplar do primeiro modelo de pianoforte, de 1803, fabricado em Hamburgo pela Baumgarten & Heinz.

Ainda segundo a proprietária, há também outras relíquias, como um lustre que pertenceu ao Palácio Imperial de Schoenbrun, de Viena, e hoje adorna o salão principal da Cachoeira Grande, e uma cadeira reclinável que foi de Dom Pedro II. Já na sala de refeições, os visitantes podem ver de perto o cardápio de um jantar servido, em 1884, em homenagem à Princesa Isabel e ao Conde D’Eu.

Na Fazenda Cachoeira Grande%2C em Vassouras%2C há cardápio do jantar oferecido à Princesa IsabelDivulgação

“Uma vitrola RCA Victor movida à manivela também é mostrada. Ela ainda funciona e causa admiração pela sua tecnologia, que já apresenta três volumes, o que demonstra uma evolução em relação ao gramofone”, ensina a proprietária Nubia Caffarelli.

A Fazenda Vista Alegre, em Valença, também reúne mobiliário original do século XIX, além de diversas obras de arte, documentos históricos variados e uma extensa coleção de fotos antigas, entre outras relíquias. Como lembra a proprietária Renata Mattos, a propriedade foi aberta a visitas na década de 1990 — é preciso agendar com antecedência.

Entre os destaques da Fazenda Vista Alegre, a Escola dos Ingênuos, que foi criada na segunda metade do século XIX pelo Visconde de Pimentel. “Foi a primeira unidade de alfabetização de filhos de escravos no Brasil”, conta a proprietária Renata Mattos.

Visitas guiadas e produção sustentável de alimentos

Na Fazenda Alliança, em Barra do Piraí, além das visitas guiadas, é possível ter contato com toda cadeia de produção de alimentos sustentável. O horto e o pomar não recebem agrotóxicos, e os animais da granja — búfalas e carneiros incluídos — fornecem queijos, linguiças e carnes orgânicas, que fazem parte do cardápio idealizado pela chef Letícia Villardo. 

Destaque da Fazenda Alliança é a produção, desde o início do ano, de café orgânico, que também pode ser conferida por quem visita o local. A colheita, no entanto, somente deverá acontecer daqui a dois anos. Para a proprietária Josefina Durini, plantar café foi uma forma de resgatar as origens da fazenda.

Ao mesmo tempo, a proprietária também conta que não desejava envenenar o solo e os lençóis freáticos, como também funcionários e os futuros consumidores. Assim, optou pela produção do café orgânico. “Foi escolhido por convicção, de respeito à saúde do ser humano e do meio ambiente. Queremos reescrever a produção do café na região, agora de forma sustentável em termos ambientais e sociais”, explica Josefina Durini.

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