Rio - Kéfera Buchmann, de 29 anos, é do tipo que dá a cara à tapa. Antes de bombar como youtuber, ela ressalta que já era atriz. Seus primeiros passos na profissão foram dados aos 15 anos, no teatro. E é no tablado que tem se sentido realizada. No dia 6, a artista estrela sua própria peça “É foda!”, fruto de um trocadilho com o filme “É fada!” (2016), no Teatro Casagrande, no Leblon, em uma apresentação única. Na obra, ela aborda todas suas 'dores e delícias'. Falante, divertida e dona de si, Kéfera não foge dos assuntos e fala abertamente sobre carreira, talento e bissexualidade.
"A peça é um lugar que me coloco muito vulnerável. As pessoas têm uma imagem minha de uma pessoa com personalidade forte, que aguenta porrada. Não sou sempre assim. Tenho meus dias bons e ruins. Nela, mostro todos esses bastidores que as pessoas não conhecem. Acham que é só glamour. Mas tem muito desgaste, exposição da vida pessoal, falta de privacidade. O público vai conhecer a Kéfera que tem um coração que sente, dói, chora. Conto coisas que tinha medo, me coloco num lugar de exposição. Agora, sabendo impacto, dou a cara a tapa", afirma ela.
O espetáculo foi escrito em apenas quatro dias. "Escrevi essa peça inteira em quatro dias depois de abrir uma caixinha de perguntas no Instagram. Comecei a responder de forma mais reflexiva meus fãs e vi que dava um espetáculo. Estou envolvida em tudo nessa peça: escrevi, roteirizei, dirigi, estrelei. Participei de cada processo muito minuciosamente. Fiquei muito feliz e orgulhosa deste trabalho. O céu é o limite. 'Vambora'", comemora ela, que tem recebido um retorno muito positivo do público sobre a obra.
A fama de youtuber de Kéfera aconteceu 'sem querer'. É que na época, ela gravava vídeos para ser notada por seus trabalhos como atriz. "Já fazia teatro. Comecei com 15 anos. Aos 17, fazia meus vídeos pra internet, com personagens de peças. Minha esperança era que algum diretor visse algum e me chamasse para trabalhar", recorda. Em pouco tempo, ela bombou no Youtube de forma despretensiosa: "Foram dez anos como youtuber. Em 2010 a gente não sabia que isso seria uma profissão, que a internet seria uma plataforma para as pessoas divulgarem seus trabalhos. Fiz meu primeiro filme, 'A Fada', por causa da internet", destaca. Através desta plataforma, seus fãs conheceram seu íntimo, já que ela compartilhava com os internautas detalhes da sua vida pessoal e profissional.
Mais madura, a atriz revela que tem se dedicado mais à atuação e expõe o desejo de ser reconhecida neste ofício. "Acho que estou no caminho das pessoas me enxergarem como atriz", acredita ela, que já estrelou filmes, novela e peças teatrais. Ela, inclusive, se doa de corpo e alma para seus personagens. "Eu rasparia cabelo, pintaria sobrancelha, ficaria bombada, emagreceria", enumera.
Última peça dirigida por Jô Soares e relação tóxica
Kéfera faz parte do espetáculo "Gashlight", o último dirigido por Jô Soares, que faleceu no dia 5 de agosto aos 84 anos. "A morte do Jô foi um choque pra todo mundo. No dia seguinte, a gente faria uma gravação para o Fantástico (da TV Globo). Seguimos com a peça como uma forma de homenageá-lo", diz a atriz, que pediu para fazer o teste da produção teatral. "Estava com minha peça em um teatro de São Paulo onde o Jô faria uma temporada. O produtor estava falando com ele por telefone. Eu cheguei no produtor e disse que gostaria de mandar meu material para a peça, fazer teste. No dia seguinte, rolou o convite. O Jô disse que se eu queria trabalhar com ele, ele queria trabalhar comigo. Um fofo. No espetáculo, eu interpreto a Nancy. Ela é meio uma criada vilanesca".
A obra aborda as relações tóxicas. Kéfera revela que já viveu em um relacionamento assim. "Já tive um relacionamento tóxico, mas ainda bem que consegui sair. É horrível viver esse tipo de tortura mental. Acho importante falar desses temas, porque a gente precisa expor pras pessoas conseguirem sair. Foi até uma surpresa pra mim. Eu, envolvida em causa feminista, estando em um relacionamento tóxico. Quando você está dentro da situação, você não percebe. Tinha medo até de desabafar com minhas amigas. Depois disso nunca mais me envolvi em nada parecido de novo", frisa.
Retorno às novelas
A única novela no currículo da atriz é "Espelho da Vida" (2018), da TV Globo. Na trama, ela deu vida à Mariane, uma famosa atriz de televisão. Kéfera deixa claro que curtiu a experiência e deseja repetir a dose. "Gostei muito de fazer novela. Inclusive, estou aberta à convites", avisa. A artista ainda expressa a vontade de interpretar papéis que a tirem da 'zona de conforto', seja nas telinhas ou nos palcos do teatro. "Ia amar fazer uma psicopata, uma vilã. Pode ser também uma dentista, advogada, médica, qualquer coisa que seja diferente da minha realidade. Que eu tenha que criar outra personalidade. Nada envolvendo esse mundo de fama, internet".
Bissexualidade
Kéfera não tem nenhum problema em falar sobre sua bissexualidade. Ela ainda conta que foi através de um processo de autoaceitação que percebeu seu interesse por ambos os sexos e que sua família reagiu bem 'à notícia'. "Foi tudo um processo de autoaceitação. Era uma questão pra mim isso de 'que eu precisava ou deveria estar com um homem'. É o que a sociedade espera. Mas desde o momento que contei que era bi, minha família aceitou bem também, o pessoal da internet recebeu bem a informação. Lembro que teve comentários do tipo: 'Kéfera bissexual choca um total de zero pessoas'. E não era pra chocar mesmo".
Atualmente, Kéfera prefere manter sua vida pessoal longe dos holofotes. "Não tenho mais vontade de expor tanto minha vida. Já fiz muito isso. Tem dias que eu posto mais, outros menos. Tudo dentro de um lugar confortável pra mim. Não expus mais os relacionamentos que tive depois de 2018, por exemplo".
Livro com temática LGBTQIAP+
Envolvida com a causa, Kéfera escreve um livro com a temática LGBTQIAP+. A obra traz um protagonista bissexual. "Quero que o livro traga o assunto da bissexualidade de forma prazerosa e não que ele seja um gatilho. Porque muita coisa que a gente vê dentro dessa temática cita as dificuldades de se assumir, o preconceito. Meu desejo é que esse livro seja como uma comédia romântica, com histórias baseadas em crise de relacionamento ou coisas que acontecem com qualquer casal. Não quero que as histórias sejam problematizadas. Quero apenas trazer informações a mais sobre o assunto".
Chegada dos 30 anos Kéfera completa 30 anos no dia 25 de janeiro e se diverte ao lembrar sobre a proximidade do 'novo ciclo'. "Meu Deus, nem me lembra. Faltam quatro meses só", afirma aos risos. Ela, então, revela o que espera desta fase. "Estou ansiosa pra ver como é. Tem uma galera que fala que depois dos 30 tudo melhora e os outros dizem que não. Assim fico confusa (risos). Acho que 30 anos vai ser uma idade de aterramento, que me comprometo comigo mesma. Dos 20 aos 30 a gente se preocupa mais com o que as pessoas vão pensar, de ter que ir aos lugares que os outros querem. Aos 30 anos, acho que a gente se coloca em primeiro lugar, respeita nossas vontades", reflete.