Criado na Rua da Golada na cidade de Pedreiras, João do Vale foi retirado da escola para que o "privilégio de um menino branco fosse assegurado", ainda no terceiro ano do primário, como declarou na série Nova História da Música Popular Brasileira, da editora Abril. Após esse episódio, e com 15 anos, fugiu de casa para conquistar "a Cidade Maravilhosa". Quase um ano depois, após uma longa itinerância se estabeleceu em Salvador, onde fez bicos em circos, construções, transportes públicos e teve seu primeiro contato com a capoeira, o samba e o candomblé.
Após deixar a capital baiana e passar por Minas Gerais, seu desejo se realizou e aos 17 ele desembarcou no Rio de Janeiro. Entre os episódios de racismo e violência que sofreu na capital fluminense, o aspirante a cantor e compositor peregrinava até as sedes de duas das maiores rádios da então capital do País, a Nacional e a Tupi. E somente cerca de 3 anos depois que conseguiu sua primeira chance, com o baião Madalena.
No ápice da sua aceitação, suas composições foram ficando cada vez mais conhecidas e em 1965, João do Vale marcou sua carreira lançando o álbum 'O Poeta do Povo", mas assim como tantos outros grandes artistas negros, morreu na miséria e no anonimato, no Conjunto Habitacional Rosa dos Ventos, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Após uma pesquisa universitária, a história de João virou livro no ano passado. Rosa dos Ventos, a estrela miúda de João do Vale foi escrito pela historiadora Marize Conceição de Jesus. Na obra, ela narra a construção do Conjunto Habitacional Rosa dos Ventos, bairro nascido a luz da segregação socioeconômica perpetuado pelo modelo de desenvolvimento capitalista brasileiro - período da ditadura civil militar —, e habitado por João do Vale até o dia de sua morte.
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