A mãe do adolescente morto no Complexo da Maré  - Paulo Carneiro/Parceiro/Agência O Dia
A mãe do adolescente morto no Complexo da Maré Paulo Carneiro/Parceiro/Agência O Dia
Por NADEDJA CALADO

Rio - "Foi um erro da polícia. Como eles não viram o uniforme escolar? Uma mochila abóbora? Eles viram meu filho e mesmo assim atiraram", lamenta José Gerson da Silva, pai do adolescente Marcos Vinicius da Silva, morto após ser baleado na barriga no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. O pedreiro conta que o filho saiu atrasado para a escola, mas resolveu voltar para casa ao ouvir os disparos da operação da Polícia Civil na comunidade. No entanto, de acordo com o pai, o estudante foi alvejado por policial que estava no veículo blindado conhecido como "caveirão" quando chegava na residência. 

"Eu estava trabalhando, quando voltei só o vi o meu filho respirando com a ajuda dos aparelhos, eu não consegui falar com ele", declara. 

Marcos Vinicius foi atingido por uma bala perdida nesta quarta-feira, durante uma operação da Polícia Civil com o apoio das Forças Armadas na Maré. Ele foi foi socorrido para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, Zona Norte, chegou a passar por uma cirurgia e teve o baço removido. Ele iria realizar uma nova intervenção na sexta-feira, mas não resistiu.

"O Estado alvejou uma criança indo para escola. Eles entram na comunidade para destruir família", afirma a mãe do menino, Bruna Silva. "Polícia homicida? Eles entram para matar?", questiona a diarista.

"Ele era meu mais velho. Minha caçula, de 12 anos, está chorando e dizendo: 'Tiraram meu irmão'. Eu espero justiça. Calaram meu filho, mas não vão me calar. Por ele, eu vou falar", afirma Bruna. Segundo ela, testemunhas relataram que pediram para que policiais não atirassem. Uma moça me disse que gritou: 'Não atira, é uma criança, ele está com roupa de escola'. Só que eles não ligaram e atiraram", lamenta.

A mãe do adolescente conta que o trajeto da casa da família na Vila do Pinheiro até o Ciep leva em média de 15 a 20 minutos. "Ele saiu atrasado, e eu ainda disse: 'Filho, não vai dar tempo", lamenta.

O adolescente será velado nesta quinta-feira no Palácio da Cidade, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. A Prefeitura do Rio vai decretar luto oficial de três dias pela morte do menino, de 14 anos. Das 45 escolas municipais da Maré, hoje apenas uma está funcionado, de acordo com o secretário municipal de Educação, César Benjamin. Ao todo, são cerca de 17 mil estudantes sem aulas. O enterro do estudante vai acontecer no Cemitério São José Batista na manhã desta sexta-feira. 

Ainda segundo o secretário de educação, a família vai receber toda a assistência econômica, psicológica e jurídica por parte da prefeitura. 

Morre o estudante Marcos Vinícius da Silva - baleado na Maré - reprodução

Defensoria Pública pede à Justiça para proibir disparos de aeronaves durante ações nas favelas

A Defensoria Pública do Estado do Rio anunciou que entrou com uma liminar na Justiça para pedir a proibição de disparos de helicópteros nas favelas ou lugares densamente povoados.

"Essa situação da utilização de um helicóptero para efetuar disparos de arma de fogo a esmo, em locais urbanos densamente povoados, enquanto se movimenta em alta velocidade é absurdamente temerária, não se tem notícia de algo parecido em qualquer lugar do mundo. A probabilidade de atingir pessoas inocentes é imensa, além do terror psicológico que causa aos moradores e interrupção das atividades na comunidade e prejuízos materiais", afirmou o defensor público Daniel Lozoya, do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh) da Defensoria Pública e que assina a petição.

No pedido, que foi protocolado na 6ª Vara da Fazenda Pública da Capital, a Defensoria requereu também o cumprimento da decisão judicial que obriga o Estado a apresentar o plano de redução de riscos e danos para evitar violação dos direitos humanos e preservar a integridade física dos moradores da Maré durante as ações policiais dentro da comunidade. O plano de redução de danos decorre de uma ação civil pública movida pela DPRJ desde junho de 2016.

Na petição entregue à Justiça, o Nudedh afirma que o prejuízo causado durante a operação conjunta da Polícia Civil e do Exército, na localidade Vila Pinheiros, dentro do território da Maré, classificado como “mais um morticínio promovido pelo Estado”, revela a persistência do réu em não cumprir a determinação judicial e ainda agir de maneira contrária às diretrizes estabelecidas na decisão proferida por este juízo.

DH vai investigar morte de adolescente

A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro informa que a Delegacia de Homicídios da Capital abriu inquérito para apurar as circunstâncias da morte de Marcus Vinicius, ferido na manhã de quarta-feira (20/06), no Complexo da Maré. Uma perícia já foi feita no local e está prevista uma reconstituição para determinar de onde partiram os tiros que atingiram o estudante.

Em nota, a Polícia Civil disse que a utilização do helicóptero em operações, como as ocorridas na quarta-feira, "se dá para a garantia da segurança de toda a população, entre eles os moradores da comunidade envolvida e os policiais que desempenham suas atividades. Não há qualquer registro de que alguém tenha sido atingido por tiros vindos da aeronave empregada na operação na Maré", diz o texto. 

"Vale salientar que os agentes apreenderam, durante a ação, quatro fuzis calibre 5.56mm, oito carregadores, duas pistolas (uma calibre .40 e outra calibre 9mm), quatro granadas, farta quantidade de munição de fuzil e pistola, farta quantidade de drogas (1.832 pinos de cocaína, 75 sacolés de maconha, cerca de 2 quilos de cocaína), além de ferramentas utilizadas para arrombamento de caixas eletrônicos". completa a nota. 

 

 

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