Livro faz recorte sobre as manifestações ocorridas em 2013

Na obra 'Jornadas de Junho 5 anos depois', jornalista relembra onda de mobilização nas ruas

Por ADRIANA CRUZ

Em 336 páginas, Tiana Maciel Ellwanger retrata as mobilizações que não tinham lideranças políticas
Em 336 páginas, Tiana Maciel Ellwanger retrata as mobilizações que não tinham lideranças políticas -

Rio - As manifestações de 2013 mostraram que as vozes das ruas ganharam eco nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Um recorte importante da história do país para entender as novas formas de mobilizações, os protestos que tiveram como principal ferramenta de aglutinação as redes sociais, são retratados com riquezas de detalhes e refinamento no livro 'Jornadas de Junho 5 anos depois', da jornalista Tiana Maciel Ellwanger.

"A maior parte das pessoas nunca tinha ido às ruas para se manifestar. Então, foi um aprendizado democrático para a população. O direito a ter direitos", avalia a autora. Para garantir olhar apurado sobre o movimento, Tiana mergulhou em mais de três anos de pesquisa e mais de 600 fontes, entre livros, entrevistas e matérias de jornais. A jornalista também analisou mais de trinta horas de vídeos do canal da Mídia Ninja e 45 edições do Jornal Nacional, da Rede Globo.

As manifestações, sem lideranças políticas, começaram a sacudir o país em junho de 2013. O aumento da tarifa do transporte foi a mola propulsora, mas a pauta de reivindicações cresceu com a violência policial, os altos investimentos em eventos esportivos, precariedade nos serviços públicos e a corrupção.

Poderes ouvem o povo

Durante o período em que as multidões erguiam bandeiras em praças, avenidas e ícones de poderes estatais, o Congresso, que funcionou até durante os jogos do Brasil na Copa das Confederações, aprovou a legislação que criou a delação premiada, esteio da Lava Jato. A Câmara dos Deputados instaurou o processo de cassação do deputado Natan Donadon (PMDB-RO), condenado por peculato e formação de quadrilha. Desde 1974, ele foi o primeiro parlamentar a ser preso por determinação do Supremo Tribunal Federal.

"Lembro ainda do caso da menina Beatriz, de 12 anos, à época. Ela fez um abaixo-assinado virtual e conseguiu impedir que a Prefeitura do Rio demolisse a Escola Municipal Friedenreich, no Maracanã", assinala Tiana.

Em 20 de junho de 2013, há a estimativa de que entre 1,5 milhão e 3 milhões de pessoas foram às ruas. No Rio, seriam trezentos mil. "Foi inédito e espontâneo. Ainda vamos descobrir outros legados", observa Tiana. O livro com 336 páginas é um convite para entender o impacto social do movimento envolvido na avalanche de notícias falsas que influenciam os rumos do Brasil e do mundo. Uma forma de refletir sobre o aqui e agora, as novas resistências, a comunicação e a democracia.

Caso Marielle Franco retoma mobilizações

Se a reação à violência levou milhares de pessoas às ruas, também foi a própria violência que arrefeceu o movimento. No campo político, a opinião polarizou. Mas o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco, do Psol, e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março, voltou a mobilizar multidões no Brasil e no mundo. Ontem, o crime completou 100 dias e os responsáveis ainda não foram descobertos.

O caso Marielle mostrou que é possível combater as notícias falsas na Justiça. Em uma delas, a vereadora chegou a ser apontada como mulher de um traficante. A desembargadora do Tribunal de Justiça Marília Castro Neves, que reproduziu mentiras sobre a vereadora, pediu desculpas e responde a procedimento no Conselho Nacional de Justiça.

"Nas manifestações de 2013, o caso do Amarildo foi cobrado", lembra Tiana. Em julho daquele ano, o pedreiro Amarildo de Souza, morador Rocinha, desapareceu após ser levado por policiais à Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Em outubro, o Ministério Público denunciou 25 PMs acusados de envolvimento na morte do pedreiro, que ganhou repercussão internacional como símbolo da violência policial. Houve protestos. O corpo de Amarildo nunca foi encontrado.

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