Witzel diz que presos no caso Marielle podem fazer delação premiada

Sem revelar mandantes e motivação do crime, delegado Giniton Lages, da DH, ressaltou a complexidade do caso por falta de testemunhas

Por Antonio Puga

Governador Wilson Witzel
Governador Wilson Witzel -

Rio - O governador Wilson Witzel disse nesta terça-feira que os presos acusados de envolvimento na morte de Marielle Franco e Anderson Gomes podem realizar delação premiada. "A Lava Jato demonstra que investigações têm que ser fragmentadas para que resultados apareçam e outros crimes sejam investigados. Esses presos podem participar de delações premiadas", disse.

O governador disse que a morte da parlamentar é inaceitável, como qualquer outra, mas ressaltou que ela exercia atividade parlamentar.

"A polícia gostaria de ter elucidado o caso no prazo que o processo penal determina de 30 dias. Mas, infelizmente a Polícia Civil do Rio foi sucateada por décadas com deficiência de homens e material. Apesar das dificuldades, delegados como Giniton, fazem a diferença", disse.

Giniton reforçou que a elucidação do caso é prioridade para a Polícia Civil e que a investigação continuará. " O caso Marielle e Anderson é emblemático. O Brasil será cobrado enquanto não terminarmos o trabalho por completo. Estamos indicando quem ocupou o veículo: quem dirigiu e quem atirou", disse.

O delegado titular da Delegacia de Homicídios da Capital, Giniton Lages, disse que a prisão do sargento da PM reformado Ronnie Lessa e do ex-PM Elcio Vieira de Queiroz concluiu a primeira fase da investigação da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes que completa um ano na quinta-feira.

O delegado, o secretário da Polícia Civil, Marcus Vinícius Braga, e o governador Wilson Witzel participaram de entrevista coletiva de imprensa no Palácio Guanabara para apresentar elementos da investigação como imagens coletadas, dificuldades do processo e o passo a passo dos criminosos.

Giniton disse considerar a possibilidade da presença de um terceiro comparsa no carro. Sobre a placa do veículo, ele disse que a investigação está sob sigilo e não haver indicação sobre a origem do veículo: "Pode ser roubado, furtado, regular ou locado", pontuou.

Perguntado sobre o fato de o sargento Lessa, acusado de efetuar os disparos contra Marielle e Anderson, morar no condomínio de luxo em que Bolsonaro tem uma casa em frente à Praia da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, o delegado Giniton Lages diz que o fato não é relevante para o caso. Uma foto atribuída ao ex-PM Elcio de Vieira Queiroz, suspeito de dirigir o veículo usado na execução abraçado ao presidente Jair Bolsonaro também não implica o presidente no caso, disse o delegado.

Queiroz, de 46 anos, teria postado a imagem em que aparece lado a lado com o Bolsonaro no último dia 4 de outubro, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial. Dias antes, em 25 de setembro, o mesmo perfil postou uma gravação de um show de Paulo Ricardo com a legenda "Homenagem de Paulo Ricardo (RPM) ao Capitão Bolsonaro!"

Siciliano e Curicica

O delegado também informou que uma testemunha procurou a Polícia Civil para mudar seu depoimento sobre a investigação que aponta o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o miliciano Orlando Curicica como mandantes do crime. Em maio de 2018, o ex-PM Rodrigo Jorge Ferreira procurou a polícia para dizer que ouviu os dois, em junho de 2017, xingando e criticando Marielle em um restaurante em junho de 2017. Giniton disse que o delator vai "arcar com todas as consequências". 

Crime sofisticado

Giniton ressaltou a complexidade do caso por falta de testemunhas. Os três que estiveram no local do crime, esquina da Rua Joaquim Palhares com João Paulo I, não viram os criminosos que não deixaram o carro.

"Os autores do crime permaneceram por duas horas dentro do veículo enquanto esperavam Marielle sair da Casa das Pretas. Isso não é simples, chamou a atenção de cara. Durante a execução eles também não desceram do veículo. A dinâmica demonstrava que o crime foge à regra", disse.

O delegado lembrou que 80% dos crimes elucidados no Brasil contam com o apoio de testemunhas, o que não aconteceu neste caso. "Há uma sofisticação. Os disparos alojados em veículos em movimento mostram que o atirador é diferenciado", disse.

Giniton defendeu o sigilo de investigações e criticou a ação de repórteres que publicaram informações obtidas através de policiais: "Não entenderam importância do sigilo". "Perdemos quando um jornalista disse que a arma era uma MP5", ilustrou. O delegado Giniton Lages agradeceu ao secretário da Polícia Civil e ao governador Wilson Witzel por terem mantido a estrutura da investigação do caso, que conta com 47 policiais exclusivos.

Câmeras desligadas

O delegado também comentou o desligamento de cinco câmeras de segurança no trajeto de Anderson e Marielle entre 24 e 48 horas antes do assassinato. Ele classificou a versão de que os equipamentos foram desligados para dificultar a investigação como teoria da conspiração.  "Algumas especulações foram colocadas. Uma é a questão de que o crime contou com alguém dentro doCentro Integrado do Comando e Controle (CICC) que teria desligado as câmeras. Isso foi saneado nos autos. Não há isso", declarou. Ele acrescentou que as câmeras não ajudariam na elucidação do crime caso estivessem funcionando:"serviam ao trânsito".

Witzel aproveitou para dizer que vai abrir concurso para delegado e policiais civis para reforçar segurança, além de abrir duas delegacias de homicídio, uma no Norte e outra no Sul do estado. 

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