Estado tem 113 casos de injúria por preconceito por mês

Dado foi apresentado em audiência pública na Alerj que discutiu livre exercício religioso e tipificação de intolerância religiosa nos boletins de ocorrência. ISP disse que ainda não existe ferramenta capaz de filtrar quais crimes, o que deve ocorrer só em 2020

Por O Dia

Terreiro destruído em Nova Iguaçu, cidade que mais registras casos de agressões por conta da intolerância religiosa no estado
Terreiro destruído em Nova Iguaçu, cidade que mais registras casos de agressões por conta da intolerância religiosa no estado -
Rio - O estado do Rio de Janeiro tem em média 113 casos de injúria por preconceito por mês. O dado foi apresentado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) durante audiência pública realizada pela Comissão de Combate às Discriminações da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), nesta segunda-feira.
A audiência discutiu sobre a Lei Federal 12.288/10, que assegura o livre exercício religioso e garante a proteção aos locais de cultos e suas liturgias, e a Lei Estadual nº 7.855/18, que determina que conste dos boletins de ocorrência a tipificação Intolerância Religiosa. O ISP disse que ainda não existe uma ferramenta capaz de filtrar quais crimes, dentro do dado apresentado, são especificamente relacionados à intolerância religiosa. Ainda segundo o instituto, esse mecanismo de verificação está em andamento pela Secretaria de Políticas de Segurança, Infraestrutura Urbana e Gestões Tecnológicas (SEPOL) e a expectativa é de que esteja pronto somente para o início de 2020.
O titular da Delegacia de Combate a Crimes Raciais e Intolerância Religiosa (Decradi), Gilbert Stivanello, afirmou que os dados já existem, mas que por ser uma tipificação muito recente, ainda está em processo de tramitação a chegada desses dados ao ISP. "Nós calculamos que assim que concluírem essa etapa, que é de um serviço interno tecnológico, esses dados já possam estar disponibilizados. Eles são de total interesse da própria Decradi para políticas de ações internas e também voltados a todos os outros órgãos que estão dentro dessa rede", explicou.
Entretanto, o deputado Carlos Minc (PSB) criticou a falta de integração entre as delegacias. "As delegacias não conseguem fazer exatamente o que a lei manda, que é registrar sempre, e o ISP não consegue fazer a estatística. Em função disso, acabam chegando poucos casos ao Ministério Público para ajuizar ações" concluiu o presidente da comissão. 
Crime Organizado
Os problemas no mapeamento desses dados também se dão em conta ao domínio do crime organizado em determinadas regiões, o que impede que o órgãos do Estado chgeuem a esses lugares. A procuradora Roberta Laplace, do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio de Janeiro (Gaeco-MPRJ), explicou que é função deles cuidar dos crimes que ocorrem nesses espaços.
"Nós já fizemos um pequeno mapeamento e estamos com nove inquéritos policiais sob nossa atribuição, com investigações levadas a cabo pelo grupo. Nós esperamos que com a delegacia especializada, esse número aumente e nós consigamos tocar mais para frente a investigação desses casos mais sensíveis", afirmou.
A representante da Subsecretaria Estadual de Promoção, Defesa e Garantia dos Direitos Humanos, Márcia Florêncio, propôs a união entre diferentes entidades. "A rede de que falamos é aproximar as Secretarias de Educação e Saúde para que possamos fazer uma porta de entrada única, de forma a evitar que a pessoa que foi violada tenha que passar por uma menor exposição e desgaste emocional", disse
A subsecretária também afirmou que pretende retomar serviços como o disque-denúncia e o disque-direitos humanos com carga horária de a princípio 12 horas, para depois evoluir para 24 horas consecutivas de atendimento. "Essa é a porta de entrada mais imediatada. Um lugar que você pode ligar a cobrar, do celular", disse. Outra iniciativa em vista é conciliar os desejos da vítima ao programa de proteção à testemunha. 
Casos de intolerância
Doné Conceição de Lissá, sacerdotisa de religião de matrizes africanas, já foi vítima de intolerância oito vezes. Os casos envolvem apedrejamento, tiros e incêndio no terreiro em que atua, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Todos as investigações estão arquivadas.
"As questões de racismo e de racismo religioso são sempre colocadas em segundo plano ou em plano algum. Então, consequentemente, nós temos que avaliar o que o Estado está promovendo de segurança pública para o seu cidadão comum. Nós somos cidadãos comuns e temos nossos direitos garantidos pela Constituição", afirmou Lissá.
Também estiveram presentes na audiência representantes da Defensoria Pública, do departamento de Assistência Religiosa da Polícia Militar e de diferentes religiões, além de membros da sociedade civil que também foram vítimas desse tipo de crime.

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