'Vivemos em um país onde o errado é o certo', diz irmã de músico morto por militares

Militares foram soltos nesta sexta-feira em decisão do Supremo Tribunal Militar

Por Jenifer Alves*

Nove militares envolvidos no crime foram soltos ontem após decisão do  Superior Tribunal Militar
Nove militares envolvidos no crime foram soltos ontem após decisão do Superior Tribunal Militar -
 Rio - Após receber a notícia da soltura dos nove militares envolvidos na morte de Evaldo Pereira, de 54 anos e do catador de lixo, Luciano Macedo, de 28, em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, a família da músico vive agora com medo. Os acusados ganharam liberdade na manhã desta sexta-feira após uma decisão do Superior Tribunal Militar (STM). 
A irmã de Evaldo, Jane dos Santos, de 41 anos, conta que o sobrinho de 7 anos, não quer mais ir à escola e vive assustado. A criança estava no carro fuzilado pelos militares e viu quando o pai foi morto. Ela diz que Luciana, viúva do músico, vive a base de remédios e que a notícia da soltura dos responsáveis pela morte do marido a desestabilizou: "Ela está afastada do trabalho, não está andando sozinha, o emocional dela está destruído", conta. Segundo ela, a cunhada e o sobrinho são acompanhados por um psicólogo.
Jane diz que, ao saber sobre a liberdade dos envolvidos no crime, a sensação que fica é de insegurança: "Estamos vivendo em um país que o errado é o certo e o certo é o errado. Eles fizeram e a qualquer momento podem fazer de novo com outra família e vai ficar por isso mesmo.", desabafa. Ela destaca que em nenhum momento houve apoio ou auxílio por parte de nenhum órgão público: "Nem o enterro eles pagaram, quem pagou foi o patrão do meu irmão, ninguém veio procurar a gente, não recebemos nenhum apoio, nada"", explica.
Nesta terça-feira, testemunhas do crime, incluindo o sogro do músico, que também foi baleado, foram ouvidas em uma audiência que apura as circunstâncias do crime. Os depoimentos foram taxativos ao reafirmarem a linha apresentada pela acusação e pelo Ministério Público Militar (MPM) de que os militares fizeram diversos disparos contra o veículo, inclusive no momento do socorro tentado pelo catador Luciano. 
No dia do crime, Evaldo levava a família para um chá de bebê, em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, quando militares alvejaram seu carro, um sedan branco, pois os mesmos suspeitaram que se tratava de um veículo roubado. Além disso, a justificativa apresentada foi de que os ocupantes do veículo eram criminosos. Além de Evaldo, o catador de material reciclável, que ajudou o filho do músico de 7 anos, a sair do carro, também foi atingido e morreu dias depois no hospital. O sogro do músico também foi baleado e conseguiu resistir ao ferimento. 
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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