Geral - Entrevista com o superintendente da secretaria municipal de saude, Marcio Garcia, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio.
Geral - Entrevista com o superintendente da secretaria municipal de saude, Marcio Garcia, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio.Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Por Yuri Eiras
Rio - O boletim epidemiológico da prefeitura é pontual: toda sexta-feira, às 8h e sem atraso, o superintendente de Vigilância em Saúde, Márcio Garcia, apresenta slides com um resumo da pandemia no Rio: curva de casos, óbitos, ocupação de leitos, novas variantes. Por vezes, o prefeito Eduardo Paes interrompe a fala para traduzir a linguagem técnica para o bom carioquês, como ao dizer que a flexibilização das medidas restritivas 'não é um liberou geral'.
Geral - Reuniao, na manha de hoje, para anunciar o 14 boletim epidemiologico, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio. Na foto, Eduardo Paes, prefeito do Rio. - Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Geral - Reuniao, na manha de hoje, para anunciar o 14 boletim epidemiologico, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio. Na foto, Eduardo Paes, prefeito do Rio.Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Publicidade
Com passagem pelo Ministério da Saúde, Márcio Garcia veio para o Rio em 2009, no primeiro mandato de Paes. Convidado para a nova gestão, comanda agora o COE COVID, amplo espaço no Centro de Operações Rio, na Cidade Nova, que acompanha a pandemia na cidade e ajuda a decidir os rumos do combate a ela. Em entrevista ao DIA, o superintendente explica o trabalho de monitoramento, fala do risco de novas variantes e lamenta a falta de critérios do governo federal na distribuição de vacinas. "Nunca vi uma descoordenação nacional como a gente vive agora".
O DIA: Quais são os índices que o COE COVID monitora para traçar o perfil da pandemia na cidade? Entre as taxas de ocupação de leitos, casos graves, óbitos, existe alguma mais importante para a tomada de decisões?
Publicidade
GARCIA: A gente monitora todos os dados epidemiológicos. Casos leves, casos graves, internações, óbitos. Todos são importantes, mas o interessante é que a gente começou a olhar mais para a assistência: um paciente foi à UPA para ser atendido, com tosse, falta de ar. Naquele momento, é um caso suspeito. O médico avalia e confirma, então ele entrou suspeito e saiu confirmado. Às vezes, essa digitação no sistema demora alguns dias, mas precisamos nos antecipar. Então, o dado mais oportuno é que esse paciente bateu na porta da UPA para ser atendido. Esse atendimento básico passou a ser relevante.
OD: O COE Covid toma as decisões de flexibilização ou endurecimento de restrições e leva até o prefeito, ou essa decisão é tomada em conjunto?
Publicidade
G: Nossa premissa é 'informação para ação'. Algumas decisões eu tomo, outras repasso ao prefeito, ao secretário. Mas para restringir ou flexibilizar o prefeito tem que levantar o cenário político, social, demográfico, econômico. A Saúde talvez esteja um pouco acima desses aspectos agora, mas tudo tem que ser levado em consideração. A decisão final é dele. Eu levo a informação epidemiológica ao secretário, ao prefeito, mostro a situação, a tendência. Mas a decisão é em conjunto.
Geral - Reuniao, na manha de hoje, para anunciar o 14 boletim epidemiologico, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio. Na foto, Eduardo Paes, prefeito do Rio. - Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Geral - Reuniao, na manha de hoje, para anunciar o 14 boletim epidemiologico, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio. Na foto, Eduardo Paes, prefeito do Rio.Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Publicidade
OD: Qual a grande novidade do Centro de Operações de Emergência? Como ele é por dentro, em estrutura?
G: A novidade é ter implementado, porque antes não tinha no Rio. É uma estratégia de resposta às emergências. Aqui, nosso Centro de Operações é formado por epidemiologistas, estatísticos, gente da Comunicação, de Tecnologia da Informação. Temos representantes de todas as áreas envolvidas na resposta à pandemia: Vigilância Sanitária, central de regulação, hospitais de urgência e emergência. Recebemos dados de todas as pontas do sistema e nos debruçamos.
Publicidade
OD: O Rio vive o pior momento da pandemia?
G: Não estamos no pior cenário. Quando a gente pega a primeira onda da pandemia no Rio, em maio de 2020, nós tínhamos um grande número de casos, e temos uma mortalidade absurda. O Rio foi o campeão de mortes porque, muito provavelmente, a capacidade não era suficiente para aquele atendimento. Pessoas estavam morrendo antes de serem internadas. Agora, estamos em outro momento. Há avanços. Estamos testando muito mais, mas testamos por conta própria. Eu já vivi H1N1, dengue, zika. No Ceará, vivi epidemia de sarampo, e em nenhum desses momentos vi uma descoordenação nacional como a gente vive agora. Os municípios tiveram que ir se organizando.
Publicidade
Geral - Entrevista com o superintendente da secretaria municipal de saude, Marcio Garcia, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio. - Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Geral - Entrevista com o superintendente da secretaria municipal de saude, Marcio Garcia, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio.Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
OD: O Rio errou em algum momento desse processo? 
Publicidade
G: Não vivi a condução da pandemia de dentro no ano passado, mas acompanhei. Os hospitais de campanha, por exemplo. Eles são uma estratégia quando você não tem leito em hospital. Aqui tinha leito para abrir, que faltava só RH, equipamento. Não era nosso caso. O que aconteceu? Abriu-se o hospital de campanha, com qualidade péssima, e aquilo virou um matadouro.
OD: Sobre a abertura de leitos, há um descompasso entre município e governo federal?
Publicidade
G: Realmente, há um descompasso. A velocidade em que o município abriu leito foi muito maior do que o estado, e o federal. Parece que agora deram uma acordada. O estado conseguiu abrir o Hospital Modular de Nova Iguaçu, e o federal está no esforço de tentar ampliar. A capital acaba recebendo muita demanda também da Região Metropolitana. Se eu não tiver um bom diálogo entre município, estado e governo federal, a sobrecarga é muito maior e o município não vai dar conta.
OD: Esse descompasso também é visto na vacinação?
Publicidade
G: Também. Nunca tivemos um calendário único e não temos uma distribuição homogênea de vacinas. Eu participei e coordenei muitas campanhas. Agora, a gente tem que fazer um monitoramento diário para saber se vai ter saldo de vacina para o outro dia. O nosso Programa Nacional de Imunização é um dos melhores do mundo, o do Rio é um dos melhores do Brasil, e nunca passamos o que estamos passando agora.
Geral - Entrevista com o superintendente da secretaria municipal de saude, Marcio Garcia, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio. - Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Geral - Entrevista com o superintendente da secretaria municipal de saude, Marcio Garcia, no Centro de Operaçoes Rio (COR), na Cidade Nova, centro do Rio.Reginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Publicidade
OD: Em quantos meses a cidade pode voltar a viver com mais tranquilidade?
G: Não sei te dizer se, hoje, a gente vai ter a introdução de uma nova variante. Se tivermos uma nova, não sabemos se a população vacinada vai estar protegida. Seria um cenário péssimo, não quero trazê-lo, mas não podemos esconder. Mas vamos dizer que não tenhamos esse cenário pessimista: nossa melhoria vai ficar totalmente dependente do avanço da vacinação. Estamos avançando. Em maio, teremos uma parte importante da população vacinada com duas doses, aí atingimos um grupo de risco maior. Acho que a gente ainda segue o ano todo vivendo a Covid. Até o meio do ano de forma importante, e o segundo semestre, se não tivermos surpresas negativas, caminhamos para esse novo normal.