Maria Cláudia Medeiros, babá de Kevin Lucas, chora ao falar do menino, que era autista e morreu baleado em QueimadosMARCOS PORTO/AGÊNCIA O DIA

Rio - O menino Kevin Lucas dos Santos, de 6 anos, que morreu na tarde de quinta-feira (6) após ser baleado em um tiroteio no Morro da Torre, em Queimados, não recebeu prioridade no socorro ao hospital porque os policiais militares não perceberam que ele havia sido atingido por um tiro. A afirmação é da babá de Kevin, Maria Cláudia Medeiros, que estava com o menino no momento. As duas outras meninas baleadas - uma adolescente de 13 anos e uma criança de 9 - foram socorridas pelos policiais e estão internadas.
A babá foi ao Instituto Médico Legal (IML) de Nova Iguaçu nesta sexta-feira (7) para liberar o corpo de Kevin - o enterro será nesta sexta-feira, no Cemitério de Austin. Maria Cláudia afirma que as crianças brincavam na rua quando houve os disparos, da parte de cima do morro para baixo. Ela diz ter visto as duas meninas baleadas no chão - Gabriela e Ludmila, que estão internadas - e também Kevin, mas não percebeu o tiro no corpo do menino porque ele não sangrou. Em nota, a PM afirmou que "os agentes foram informados que haviam 3 pessoas baleadas na Rua Colombo", e que os policiais apenas "localizaram uma adolescente e uma criança feridos, e os socorreram à Unidade de Pronto de Atendimento (UPA) de Queimados". Kevin foi levado pela família.
"Não aparentava marca de tiro porque não sangrou. Eu peguei ele no colo, entrei no carro da polícia e a polícia falou que só ia socorrer quem tinha levado os tiros, e me tirou do carro. Então saí e arrumei uma moto. Fomos à UPA, só que ele já chegou morto. Lá, a médica chamou e falou que ele tinha levado tiro no peito, direto no coração. Eu não acreditei. Pedi pra ver e, realmente, no mamilo dele havia uma bala certeira no coração", disse Maria Cláudia.
A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) já colheu depoimentos de familiares e dos policiais militares que participaram da ação. A perícia no local foi realizada e as armas usadas foram entregues pela Polícia Militar à Polícia Civil.
"Ele é uma criança especial (Kevin tinha transtorno do espectro autista) que só estava brincando no portão de casa. Eu entrei no carro da polícia, mas como ele não estava com marca de tiro nenhum, ele parecia desmaiado. Até eu pensei isso. E aí, eles falaram que iam dar preferência a quem estava baleado", disse a babá, a quem Kevin chamava de 'vó'.
A PM diz que o confronto começou quando "equipes do 24ª BPM (Queimados) estavam em patrulhamento na Estrada do Riachão, um dos acessos à comunidade da Torre, no bairro Inconfidência, em Queimados, quando foram atacados por criminosos da região". A equipe afirma que desembarcou da viatura, buscou abrigo e não efetuou disparos. 
Ainda abalada, a babá afirma que o responsável pelo tiro deveria admitir o erro. "Quero justiça. Quem deu o tiro sabe que deu o tiro. Queria que ele se entregasse e falasse 'fui eu, fui eu quem atirou, pensei errado, pensei que era bandido, não enxerguei direito'. Que desse uma desculpa, mas que reconhecesse o erro que fez", diz a babá.
Meninas baleadas em Queimados seguem internadas, uma delas em estado grave
Seguem internadas as duas meninas baleadas durante o confronto. Gabriela, de 13 anos, está no Hospital Geral de Nova Iguaçu, com quadro estável após passar por cirurgia. Ludmila Teles, de 9 anos, está internada em estado estável no Hospital Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, Duque de Caxias. 
Ao DIA, a prefeitura de Nova Iguaçu informou que Gabriela, de 13 anos, deu entrada no Hospital Geral após ser baleada na perna direita, na região da coxa. Ela também sofreu uma lesão na bexiga, provocada pela perfuração. Gabriela foi submetida a uma cirurgia de emergência e está em pós-operatório no CTI (Centro de Terapia Intensiva). A menina Ludmila, internada no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, também foi baleada na perna.
Colaborou o fotógrafo Marcos Porto