Mãe de Moïse relatou desaparecimento do caderno em depoimento do último dia 2Marcos Porto/Agencia O Dia

Rio - A mãe de Moïse Kabagambe, de 24 anos, Lotsove Lolo Lavy Ivone, contou em depoimento na Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), no dia 2 de fevereiro, que um caderno com anotações das vendas que o filho fazia em quiosques desapareceu após sua morte. O congolês foi espancado por três homens no quiosque Tropicália, na orla da Praia da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, no último dia 24, e não resistiu aos ferimentos.

De acordo com a mãe da vítima, Moïse trabalhava nos quiosques em regime de comissão e o pagamento, normalmente, era realizado no final do dia, mas as vendas feitas por cartão de crédito costumavam ter o pagamento postergado. Na oitiva, ela não soube confirmar se seu filho tinha valores a receber do quiosque Tropicália, nem se estaria indo ao local para cobrar qualquer dívida.
Segundo o depoimento do irmão do congolês, Djodjo Baraka Kabagambe, na mesma ocasião, Moïse contou, na manhã anterior ao crime, que estava indo trabalhar e cobrar dois dias de pagamento do quiosque Tropicália que lhe era devido. Ainda segundo Djodjo, as reclamações sobre o pagamento por seus serviços no Tropicália eram recorrentes e Moïse se queixava que sempre era pago com menos do que o combinado.
Entretanto, a versão apresentada pelos três denunciados pela morte da vítima, Fábio Pirineus da Silva, o Bello, Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, o Dezenove, e Brendon Alexander Luz da Silva, o Tota, é de que o congolês estava bêbado e tinha tentado roubar bebida do Tropicália antes de ser agredido. Os denunciados disseram ainda que não haviam pagamentos em atrasados e que Moïse sempre arrumava confusão com os banhistas e com os trabalhadores dos quiosques. Eles negaram que as agressões foram motivadas por racismo ou por ele ser estrangeiro.
O administrador do Tropicália, Carlos Fábio da Silva Muzi, disse, também em depoimento à especializada, que conheceu o congolês em 2019, quando ele passou a fazer serviços esporádicos no quiosque, e que nem sempre aparecia para trabalhar. De acordo com Carlos Fábio, a vítima chegou a trabalhar no Tropicália no início deste ano, mas foi dispensado no dia 19 de janeiro por estar trabalhando alcoolizado. Ele também negou qualquer dívida com Moïse. Entretanto, a versão dada por um primo do jovem, Gabie Nzazi N Sele, é de que ele era brincalhão e comunicativo, mas não era agressivo e não costumava se meter em brigas.

Os relatos constam na decisão da juíza Tula Correa de Melo, da 1ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), que aceitou a denúncia do Ministério Público do Rio (MPRJ) por homicídio triplamente qualificado contra os três homens que agrediram Moïse e decretou a prisão preventiva deles, nesta terça-feira (22). Assim, Aleson, Brendon e Fábio viram réus pela morte do congolês.

No documento, a juíza explicita que há indícios de que o crime foi praticado por "motivo fútil", já que aconteceu após uma discussão e que teve "emprego de meio cruel haja vista as agressões bárbaras" contra Moïse. Os denunciados têm até dez dias para apresentar uma resposta escrita e apresentar documentos que possam embasar a defesa.

Crime que chocou o país

Moïse Kabagambe, 24 anos, trabalhava no quiosque Tropicália na praia da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Ele foi espancado e morto por Fábio Pirineus da Silva, Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca e Brendon Luz da Silva na noite do último dia 24 de janeiro. Os três homens agrediram o jovem com socos e chutes, golpes de taco de beisebol e pauladas.

O motivo, de acordo com relatos colhidos pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCRJ), foi um desentendimento após Moïse cobrar valores de duas diárias de trabalho no quiosque. O crime gerou grande comoção com repercussão nacional e internacional, protestos e até relatos de ameaças de familiares do jovem congolês que chegaram a dizer que teriam sido inibidos ao ir até o local onde fica o quiosque para protestar e mostrar a indignação pelo assassinato brutal de Moïse.

Organizações de Defesa dos Direitos Humanos, Grupos Antirracistas e outras entidades de grande importância, bem como artistas e autoridades foram às redes sociais protestar contra o crime. O caso chamou a atenção das autoridades sobre condições de trabalho insalubre, maus tratos, abusos e não cumprimento de leis trabalhistas para com os imigrantes que residem na capital fluminense, que vieram para cá fugindo de guerras e conflitos políticos na esperança de um recomeço no Brasil.