Nesse bate-papo, também comentei que já penso nos meus 50 anos — faço 45 em julho. E, apesar de ter aprendido que o futuro é incerto, digo que o meu grande plano é chegar lá ainda vendo o mundo de cabeça para baixo no pilatesArte: Kiko

A cena se passou na cozinha, na hora do almoço, na quinta-feira retrasada. Naquele dia, a Seleção jogaria à noite no Maracanã, contra o Chile, e a minha irmã e o meu cunhado levariam os meus dois sobrinhos ao jogo. À mesa, o meu pai comentou: "Sair daqui de Caxias para o Rio mais tarde... Que disposição!" Não resisti e logo lembrei que ele e minha mãe já fizeram o mesmo quando eu e meus irmãos éramos menores. "Mas eu era jovem...", justificou, tentando acabar com os meus argumentos.
Aliás, é mesmo mágica essa convivência frequente entre diferentes gerações. Afinal, ela nos dá a nítida noção de que o relógio está em constante movimento. Não deve ser por acaso que tenho refletido muito sobre a ação do tempo. Esse foi, inclusive, o assunto numa ótima conversa no estúdio onde pratico pilates, quando a Rosangela, uma ex-aluna, apareceu para uma visita. A nossa prosa fluiu naturalmente sobre o curso da vida, especialmente na pandemia. Da apreensão dos últimos dois anos, carrego hoje os meus primeiros fios brancos de cabelo, ainda tímidos, mas reveladores. Além deles, ganhei um novo par de óculos, agora para leitura, como prova de que a idade chega para todos. E não seria diferente para mim, que já tenho miopia há muito tempo.
Nesse bate-papo, também comentei que já penso nos meus 50 anos — faço 45 em julho. E, apesar de ter aprendido que o futuro é incerto, digo que o meu grande plano é chegar lá ainda vendo o mundo de cabeça para baixo no pilates. Afinal, Joseph, inventor do método, já dizia que somos tão jovens quanto a flexibilidade da nossa coluna. E a vida, uma grande professora, ainda me ensinou que um bom jogo de cintura também ajuda na jovialidade da alma.
Sabiamente, a Rosangela falou sobre o transcorrer da idade: na infância, comemoramos os primeiros passos de vida, cheios de energia, enquanto na maturidade nos deparamos com os avisos constantes de que o nosso corpo já não é o mesmo. Podemos até fingir que não estamos vendo. Mas envelhecer é tão natural que nós fazemos isso todos os dias.
Assim, o passar dos anos surge como tema nas minhas andanças por aí. E nem é preciso ser da mesma geração para assimilar o universo de quem nos cerca. Mesmo com 27 anos de distância para o meu pai, eu já compreendo o seu pensamento. Especialmente quando o meu corpo dá sinais de muito cansaço após um show que toma parte da madrugada e coloca os meus pés à prova. Nesse momento, até consigo me transportar para o futuro e imaginar o meu comentário, daqui a alguns anos, quando os meus sobrinhos saírem de casa sozinhos, superanimados para algum evento: "Que disposição!"