Um dos principais movimentos é do Comando Vermelho contra áreas antes dominadas por milícias.Gerado por IA
Depois de anos de expansão, principalmente das milícias entre 2016 e 2020, o avanço sobre novos territórios ficou mais difícil. Com isso, as organizações passaram a buscar espaço por meio de confrontos diretos, o que tem contribuído para o aumento dos tiroteios e da violência em diferentes pontos do estado.
Tiroteios mais que dobram em um mês
Esse cenário ficou evidente em julho, quando as disputas entre facções criminosas e milícias se intensificaram na região metropolitana do Rio. Ao todo, foram registrados 34 tiroteios provocados por conflitos entre grupos armados, o maior número de 2026. As ocorrências deixaram 29 pessoas baleadas, segundo um levantamento do Instituto Fogo Cruzado.
O número de confrontos mais que dobrou em relação a junho deste ano, quando foram registrados 16 tiroteios. Ainda de acordo com o levantamento, os bairros de Cordovil, Brás de Pina e Vigário Geral passaram por 12 dias seguidos de disputas entre grupos armados ao longo do mês de julho.
De janeiro a julho, foram registrados 138 tiroteios relacionados a disputas entre grupos armados. Veja os números por mês:
Janeiro: 21
Fevereiro: 14
Março: 17
Abril: 13
Maio: 23
Junho: 16
Julho: 34
Os dados também mostram os bairros que registraram o maior número de ocorrências e vítimas. Confira no mapa abaixo:
“Nos últimos anos, as divisões internas e o enfraquecimento das milícias abriram espaço para o avanço do tráfico de drogas em determinados territórios. Com isso, diferentes grupos passaram a disputar o controle dessas áreas, aumentando a violência e a exposição dos moradores de favelas e periferias a confrontos armados. Esse cenário também evidencia as falhas das políticas de segurança pública no Rio de Janeiro.”
Sobre o avanço do Comando Vermelho em áreas antes controladas por milícias, o pesquisador Helbson de Avila afirma que a expansão para regiões da Zona Oeste do Rio e da Baixada Fluminense está relacionada à exploração econômica desses territórios.
“Essas áreas se tornaram disputadas porque as milícias já haviam criado formas de cobrança ilegal sobre os moradores, transformando serviços e a própria moradia em fontes de lucro. Ao ocupar esses territórios, o Comando Vermelho não apenas amplia o comércio de drogas, mas também pode passar a explorar atividades econômicas que já eram controladas pelas milícias. Isso mostra como a disputa por essas regiões também envolve o interesse em obter lucro com a população mais vulnerável, em um contexto marcado pelo racismo estrutural.”
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O interesse por trás da disputa por territórios
Para Helbson de Avila, um território se torna estratégico não apenas por permitir o controle de rotas de circulação, mas também pelas oportunidades de lucro que oferece. Segundo o pesquisador, áreas onde as milícias já controlam serviços e cobram taxas ilegais dos moradores podem se tornar alvos de outros grupos armados interessados em explorar essas atividades e ampliar suas fontes de renda.
“A disputa territorial afeta a rotina das comunidades ao impor um estado de exceção permanente, materializando o que Achille Mbembe define como necropolítica, onde o poder armado decide cotidianamente quem vive, quem morre e como se vive. Para os moradores, essa dinâmica traduz-se no cerceamento do direito à cidade (Henri Lefebvre), na interrupção violenta do acesso à educação e à saúde, e no confinamento forçado, instaurando um terror psicológico.”
O pesquisador destaca que, ao assumir o controle de uma região, esses grupos passam a explorar diferentes atividades econômicas e serviços utilizados pelos moradores. Isso inclui desde a distribuição de água, gás e internet até o transporte alternativo e a ocupação irregular de terrenos, por meio da grilagem.
“Essa prática reflete a comodificação da pobreza, onde facções e milícias agem como corporações ilícitas que tributam a sobrevivência das classes subalternas, explorando as fissuras do racismo ambiental para converter a precariedade estrutural dos territórios em dividendos multimilionários.”
A mudança nas estratégias de expansão
Helbson de Avila também destaca que as facções estão mudando suas estratégias de expansão territorial. Segundo ele, em vez de avançar apenas sobre áreas onde ainda não há grupos criminosos estabelecidos, essas organizações passaram a disputar territórios já controlados por milícias, onde existem atividades econômicas exploradas ilegalmente.
“Essa mudança ocorre porque a captura de territórios preexistentes oferece uma estrutura de governança armada e de submissão econômica já naturalizada, permitindo que os invasores convertam imediatamente o controle dos corpos locais em capital.”
Ainda de acordo com o pesquisador, a reação de um grupo ao avanço de uma facção rival pode desencadear uma série de ataques em diferentes comunidades. Esses ataques podem acontecer ao mesmo tempo em diferentes comunidades, levando os confrontos para além da área inicialmente disputada. Segundo ele, essa estratégia também pode dificultar a atuação das forças de segurança e desgastar o grupo rival.
“Esse efeito dominó transforma a cidade em um tabuleiro de conflitos assimétricos, evidenciando que a violência não é um lapso episódico, mas uma tecnologia estrutural de demonstração de força que transborda as fronteiras de um único bairro.”
Confrontos que marcaram a história do Rio
As disputas pelo controle de territórios não são novas no Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, conflitos entre facções, milícias e grupos rivais resultaram em tiroteios, violência e mortes em diferentes regiões do estado. Relembre alguns dos principais confrontos que marcaram a história do estado.
Guerra da Rocinha
A invasão aconteceu na Sexta-Feira Santa e provocou uma série de tiroteios. Os criminosos chegaram a fazer uma falsa blitz na Avenida Niemeyer, onde uma motorista acabou morta. A polícia então ocupou a região com cerca de 1.200 policiais, incluindo equipes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Dias depois, Lulu morreu em um confronto com a polícia. A guerra continuou nas semanas seguintes e deixou dezenas de mortos, além de mudar a disputa pelo controle do tráfico na Rocinha. Dudu acabou preso posteriormente.
Onda de ataques e ocupação do Alemão e da Vila Cruzeiro
O Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e os fuzileiros navais ocuparam a Vila Cruzeiro, em 25 de novembro. Com o avanço das tropas, centenas de criminosos fugiram pela mata em direção ao Complexo do Alemão.
Três dias depois, cerca de 2.700 agentes das forças de segurança entraram no Complexo do Alemão, com apoio de blindados e helicópteros. Muitos criminosos fugiram ou se renderam, e o território foi ocupado. A crise deixou 39 mortos e mais de 180 veículos incendiados, segundo o balanço das autoridades.
A disputa pelo controle da Rocinha em 2017
Rogério teria se recusado a deixar o comando da Rocinha e rompeu com a Amigos dos Amigos (ADA), buscando apoio do Comando Vermelho (CV). Em setembro, homens ligados a Nem tentaram retomar o território, dando início a semanas de tiroteios e confrontos que afetaram a rotina dos moradores.
Operação no Jacarezinho em 2021
A ação terminou com 29 mortos, sendo um policial civil e 28 pessoas apontadas pelas autoridades como suspeitas de envolvimento com o crime. Na época, a operação foi considerada a mais letal da história do Rio de Janeiro, superando outros episódios de violência policial registrados anteriormente no estado.
A maior parte dos inquéritos que investigavam as mortes foi arquivada pela Justiça, com reconhecimento de legítima defesa dos policiais em diferentes casos.
Alemão e Penha: a operação policial de 2025
A Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio, foi a ação policial mais letal da história do estado.
Cerca de 2.500 policiais civis e militares participaram da operação, que tinha como alvo integrantes do Comando Vermelho (CV), entre eles o traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca.
A operação terminou com mais de 120 mortos, incluindo policiais e pessoas apontadas pelas autoridades como integrantes da facção. Também houve mais de 110 prisões e apreensão de dezenas de fuzis. A ação foi marcada por intensos confrontos, além do uso de blindados e aeronaves.
Em 1979, com a Lei da Anistia, os presos políticos foram libertados, enquanto os presos comuns permaneceram na cadeia.Gerado por IA
Na época, o presídio, conhecido como “Caldeirão do Diabo”, era marcado por condições precárias, violência e relatos de tortura e mortes. Durante a ditadura militar, presos políticos integrantes de organizações armadas passaram a ser encarcerados junto com criminosos comuns, principalmente após o roubo a bancos ser enquadrado como crime contra a segurança nacional.
Os dois grupos passaram, então, a dividir as mesmas celas. Muitos dos presos comuns, em sua maioria envolvidos em assaltos a bancos, tinham pouca ou nenhuma educação formal e desconheciam seus direitos. Por meio da convivência com os presos políticos, passaram a ter contato com informações sobre direitos, organização e formas de reivindicação. Os presos políticos também atuavam na intermediação de negociações por melhores condições dentro do sistema penitenciário.
Uma das primeiras medidas da organização foi criar um “caixa comum”, formado com parte do dinheiro obtido por integrantes que estavam em liberdade por meio de atividades criminosas. A contribuição ficou conhecida como “dízimo”. O dinheiro era usado para financiar tentativas de fuga e também para ajudar a melhorar as condições dentro do presídio. Nesse período, os integrantes da organização perceberam que crimes como assaltos a bancos, roubos de carros e outros furtos não geravam tantos recursos quanto o tráfico de drogas. A partir daí, a venda de entorpecentes passou a ganhar espaço como uma das principais fontes de renda da organização.
Em 1979, com a Lei da Anistia, os presos políticos foram libertados, enquanto os presos comuns permaneceram na cadeia. Sem a presença dos antigos colegas de cela, a mobilização por melhores condições dentro da prisão perdeu a força.
Os integrantes da Falange Vermelha passaram a adotar novas formas de organização. A partir de 1980, uma série de fugas foi registrada no presídio. Mais de cem detentos conseguiram escapar. Em uma dessas ações, José Jorge Saldanha, conhecido como Zé Bigode, conseguiu fugir, chegar ao continente e se esconder na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Com o dinheiro dos assaltos a bancos, a organização também passou a investir no tráfico de drogas, principalmente na venda de cocaína. Na década de 1980, a Colômbia se consolidou como um dos principais produtores da droga, enquanto o Rio de Janeiro passou a fazer parte de novas rotas de distribuição.
A atuação no tráfico aumentou o poder financeiro da facção e contribuiu para sua expansão. Com o passar dos anos, o Comando Vermelho passou a disputar e controlar territórios não apenas no Rio de Janeiro, mas também em outros estados brasileiros.
A expansão pelo Rio
A Região Metropolitana do Rio de Janeiro abriga hoje uma espécie de “cidade invisível”, que não aparece nos mapas, mas influencia a vida de milhões de moradores.
Segundo levantamentos do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) e do Instituto Fogo Cruzado, cerca de 4 milhões de pessoas viviam, em 2024, sob o controle ou influência de grupos armados.
Em entrevista ao DIA, o sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) José Cláudio Souza Alves afirmou que a operação policial realizada no Complexo do Alemão, em 2010, com o objetivo de conter o Comando Vermelho, não conseguiu controlar a região nem impedir o avanço da facção.
A operação ocorreu dentro do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implantado no Rio de Janeiro a partir de 2008. Segundo José Cláudio, a atuação das UPPs foi marcada por casos de violência policial, mortes e desaparecimentos forçados.
Para o sociólogo, depois dessa fase, o Comando Vermelho passou a ampliar sua presença para outras regiões do estado.
“A Baixada Fluminense se transforma em uma nova fronteira de ganhos para o Comando Vermelho, como forma de recuperar as perdas sofridas nas comunidades do Rio de Janeiro. As UPPs ocuparam principalmente áreas da facção e prejudicaram seus negócios e interesses. Com isso, o grupo passou a se expandir para a Baixada, para a Região dos Lagos, Angra dos Reis e também para São Gonçalo, incluindo áreas como o Complexo da Reta e o Salgueiro. Foi assim que o Comando Vermelho foi se consolidando.”
Em 2019, segundo José Cláudio, o Comando Vermelho perdeu territórios para a milícia, como áreas de Nova Iguaçu e da Estrada de Madureira. A partir desse momento, a facção passou a reformular sua atuação e a desenvolver uma estratégia para responder ao avanço da milícia, iniciando um processo de reestruturação.
“A milícia não tem uma estrutura centralizada. Ela é fragmentada, com várias lideranças que disputam entre si e entram em conflito por territórios. Nesse cenário, o Comando Vermelho percebe um ambiente e um momento oportuno para retomar áreas. A facção passa a fazer negociações com a polícia, que começa a demonstrar mais interesse em acordos com o Comando Vermelho do que com a milícia. Os acordos com os grupos milicianos são instáveis, enquanto o Comando Vermelho mantém uma relação mais estável e garante segurança.”
Expansão nacional
De acordo com o sociólogo, a expansão nacional do Comando Vermelho está ligada à disputa com o Primeiro Comando da Capital (PCC) pelo controle das rotas de drogas, principalmente as que passam pelo Paraguai. A disputa levou as duas facções a formar alianças com grupos menores em diferentes estados, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
As vantagens de controlar um território
José Cláudio explica que a presença de um grupo armado em determinado território representa uma série de vantagens, como o controle da área, do dinheiro e dos negócios que circulam naquele espaço. Segundo ele, esse domínio também pode influenciar a política local, já que projetos políticos podem buscar apoio dessas estruturas.
Para o sociólogo, essa relação entre grupos armados e poder político faz parte da história do Brasil. Ele afirma que, desde o período colonial, grupos armados passaram a controlar territórios e exercer poder sobre a população.
O avanço do Comando Vermelho na Amazônia
Na avaliação de José Cláudio, a Amazônia se tornou uma resposta do Comando Vermelho ao avanço do PCC em direção ao Paraguai e à Bolívia. De acordo com ele, enquanto o PCC buscou fortalecer sua presença no corredor que passa por São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia, o Comando Vermelho ampliou sua atuação em direção ao Norte.








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