O músico Vando dos Santos, preso injustamente há dois anos e sete meses deixou o presidio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio. Na foto, Tamires Marins da Silva, companheira do musico ( blusa branca ) e a advogada Martha Telles Dias
O músico Vando dos Santos, preso injustamente há dois anos e sete meses deixou o presidio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio. Na foto, Tamires Marins da Silva, companheira do musico ( blusa branca ) e a advogada Martha Telles DiasReginaldo Pimenta / Agencia O Dia
Por Lucas Cardoso
Rio - "Isso é tudo por causa da cor da pele?". Essas são as palavras do percussionista Vando dos Santos Bernardo, de 35 anos, solto neste sábado, após cumprir dois anos e sete meses por um crime que garante não ter cometido. Vando era acusado por um latrocínio (roubo seguido de morte) que ocorreu em 2017 e foi reconhecido por uma foto do Facebook. A sentença de soltura foi expedida pela juíza Simone de Faria Ferraz, da 43ª Vara Criminal Vítima, que julgou insuficiente as provas apresentadas pela acusação. O caso foi dado em primeira mão pelo O DIA.
Preso desde julho de 2018 por um crime que ocorreu em 2017, o músico integrante de um grupo de pagode comemorou sua saída do Presídio Evaristo de Moraes (Galpão da Quinta), em São Cristóvão, com um pandeiro nas mãos, mas também questionou a causa da acusação. 
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"Foi por causa da minha cor? Vou mostrar para todos que como sempre trabalhei e sempre foi, esse sempre foi o meu instrumento de trabalho. Vou mostrar para todos que a minha carreira não parou por aqui, Sei que tem muita coisa boa me esperando aqui fora. Espero alegrar muitas pessoas aqui fora e fazer um som para todos", disse o percussionista.
Apesar do tempo privado de sua liberdade, Vando diz que não sente rancor pelos responsáveis de o colocar na cadeia. "Eu perdoo eles por isso. Quero viver minha vida, curtir minha família. Que isso fique no passado", declarou o músico, que faz parte de um grupo de pagode. 
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Ansiosa pela saída do companheiro, Tamires Marins, falou sobre os momentos difíceis que a família passou durante a prisão de Vando."Dois anos e sete meses que perdemos. Dois anos e sete meses da filha dele sem o pai. Éramos só saudade. Ainda bem que isso acabou. A pior parte passou", comemorou.
Segundo a advogada, Martha Dias, a decisão pela absolvição emitida pela juíza da 43ª Vara Criminal, Simone de Faria Ferraz, corrige um erro grave cometido no caso do músico. "Vando foi tratado como latrocida, mas, na verdade, o que ele sabe é cantar", contou.
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"Nós sabemos que o responsável pela investigação é a Polícia Judiciária, ok. Sabemos que eles têm uma estrutura precária, mas nós sabemos também que o fiscal externo da Polícia Civil do Rio de Janeiro é o Ministério Público e eles têm chancelado esse tipo de reconhecimento no judiciário. Tem feito vista grossa, tem ignorado provas técnicas, não pede recolhimento de câmeras. Uma falta de responsabilidade com a vida humana, não só pelo Vando, mas também pela vítima, que teve sua vida ceifada e não teve justiça. O Ministério Público foi, no mínimo, omisso", acusou a advogada.
Entre as controvérsias no caso apontadas pela advogada, a que chamou maior atenção e contribuiu para a vitória da defesa foi a incoerência entre os depoimentos prestados pela principal testemunha e vítima. Ouvida em quatro oportunidades pela Justiça, ela mudou por diversas vezes características do responsável pelo crime, atribuindo novas roupas e até acessórios. 
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"A única característica que a testemunha repetia era o fato de ele ser negro. Isso é uma característica genérica e está relacionado ao racismo institucional ou estrutural. Chama atenção a quantidade de pessoas reconhecidas por esse método em sua grande maioria de pessoas pretas, como o Vando", comentou a advogada
Para reparar Vando pelos dois anos e sete meses preso, a advogada promete acionar o Estado para obter restituição. "Ao nosso sentir, o dano passado por ele é imensurável. Que isso sirva de lição para as autoridades",