Megaoperação mira empresários ligados a construções irregulares em áreas de milícia

São 17 mandados de prisão contra pessoas envolvidas em empreendimentos construídos na Muzema, Gardênia Azul, Rio das Pedras e Anil

Por RAFAEL NASCIMENTO e RAI AQUINO

Leonardo Igrejas Esteves Borges
Leonardo Igrejas Esteves Borges -
Rio - O Ministério Público do Rio faz, nesta terça-feira, uma megaoperação contra empresários, investidores e corretores envolvidos em construções irregulares na Muzema, Gardênia Azul, Rio das Pedras e Anil, todas regiões da Zona Oeste do Rio. Na Operação Muzema, como foi batizada, policiais da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) pretendem cumprir 17 mandados de prisão e vários outros de busca e apreensão. Até o momento 13 pessoas foram presas, uma delas no Piauí, no Nordeste do país.
De acordo com as investigações, a quadrilha alvo da operação atua investindo na construção e venda de imóveis, shoppings, salas comerciais e até ruas inteiras em áreas dominadas por milicianos. Os investigados dão suporte financeiro, investindo milhões nos projetos para que os prédios sejam erguidos. Desde 2014, eles teriam construído uma área equivalente a 7 mil metros quadrados
Um dos principais alvos da ação, Bruno Pupe Cancella, de 38 anos, foi preso em um apartamento onde mora no Anil. De acordo com o delegado Gabriel Ferrando, da Draco, Bruno é um dos construtores da milícia e teria movimentado cerca de R$ 25 milhões em quatro anos.
A mulher dele, Letícia Champion Ballalai Cancela, trabalha como agente de trabalhos de engenharia da Secretaria Municipal de Fazenda e teria acessos ao sistema de IPTU. Ela foi indiciada na ação suspeita de favorecer a atuação do grupo. A prisão dela, no entanto, não foi aceita pela Justiça.
Os agentes também estiveram em um condomínio de luxo na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, para prender o empresário Leonardo Igrejas Esteves Borges, 40. Ele seria um dos principais investidores dos empreendimentos.
Um outro alvo é o investidor Fábio Fontana Castro, que injetou dinheiro na quadrilha. Ele é sócio de um escritório de advocacia que atua como uma imobiliária vencendo imóveis nas áreas das milícias. O homem foi procurado em casa, na Barra, mas não foi encontrado.
O marido de Letícia, Bruno Pupe Cancella foi preso em casa, no Anil - WhatsApp O DIA (21) 98762-8248
Procurada pelo DIA sobre o indiciamento de Letícia Cancella, a Secretaria Municipal de Saúde disse que uma das funções servidora é auxiliar serviços de engenharia e arquitetura da pasta. 
A secretaria afirma também que a função de agente de trabalhos de engenharia "não prevê acesso ao sistema de cadastro do IPTU, sendo a inclusão de imóveis no programa de responsabilidade de outros servidores".
"A Fazenda acrescenta ainda que desaprova qualquer desvio de conduta e está à disposição do Ministério Público para colaborar com a apuração dos fatos e que já está auditando os últimos acessos da funcionária a programas do IPTU. A secretaria aguarda, no momento, mais informações para abrir uma sindicância administrativa", disse, em nota.
Espingarda apreendida com Manuel Henriques da Silva Júnior - Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
SIGILO DE DADOS
O juiz Daniel Werneck Cotta, da 33ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), autorizou o pedido feito para a quebra de sigilo dos dados dos aparelhos eletrônicos que estão sendo apreendidos na operação.

"A quebra do sigilo dos dados, ora requerida, é necessária e decorre logicamente do próprio deferimento das cautelares de busca e apreensão, uma vez que a análise do conteúdo dos aparelhos apreendidos é imprescindível para obtenção dos elementos de prova armazenados. Seria incoerente possibilitar a apreensão e impedir o acesso ao conteúdo e dados dos dispositivos apreendidos", o magistrado defendeu.
NO RASTRO DA MILÍCIA

A Draco investiga há tempos quem são os sócios e financiadores da milícia que atua na Zona Oeste do Rio. A especializada quer identificar e punir pessoas que, ocultamente, financiam o grupo paramilitar que exerce o poder com mãos de ferro — principalmente — em Rio das Pedras e Jacarepaguá.
Para a Polícia Civil, tentando não se expor, os milicianos se utilizam de laranjas para cometerem crimes. "Já estamos com as investigações avançadas para prender e punir esses criminosos", contou Ferrando.
Manuel Henrique da Silva Júnior - Rafael Nascimento / Agência O DIA
27 DENUNCIADOS
As investigações para a operação foram feitas pelo Ministério Público estadual (MPRJ), que denunciou 27 pessoas por envolvimento na organização criminosa. Eles também são apontados em outros crimes relacionados à exploração imobiliária clandestina na Muzema e adjacências, dentre os quais a ocupação, loteamento, construção, venda, locação e financiamento ilegais de imóveis, além de ligações clandestinas de água e energia elétrica e corrupção de agentes públicos.
Além das prisões, o MPRJ também pediu a suspensão cautelar das atividades da BLX Serviço de Engenharia Ltda e da Manuel Containers Andaimes Rio Eireli (Rio Containers), tendo em vista a atuação delas em crimes ambientais.
No inquérito, o Ministério Público alega que os criminosos colocam em risco a segurança de pessoas que compram imóveis que não oferecem o mínimo de qualidade construtiva para seus habitantes e causam graves danos ao meio ambiente.
Material apreendido na ação - Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Ainda segundo o MPRJ, as investigações apuraram não só a prática de crimes ambientais, como a supressão de vegetação especialmente protegida (Mata Atlântica), dano ambiental em área próxima de unidade de conservação e extração clandestina de recursos minerais, como outros crimes relacionados, como divisão do solo urbano, corrupção e furtos.
A denúncia apresentada pelo Ministério Público apontou que os empreendimentos imobiliários exploram o déficit habitacional urbano, servindo como fonte ilícita de riqueza para poucos. As investigações apuraram que as edificações de grande porte – comercias e residenciais multifamiliares (condomínios mistos) – são erguidas à revelia do poder público, inclusive com a utilização de maquinário pesado, como caminhões, escavadeiras e contêineres. A fiscalização da prefeitura não impede a construção clandestina das unidades, ou mesmo a demolição, colocando, assim, a população em risco.
Breno Boffelli de Souza - Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
TRAGÉDIA NA MUZEMA
Uma das áreas investigadas pela operação, a Muzema, está na mira da Polícia Civil desde o desabamento de dois prédios no dia 12 de abril. A tragédia causou a morte de 24 pessoas e deixou várias outras feridas.
Os prédios que desbaram ficavam no Condomínio Figueira do Itanhangá e eram irregulares, segundo a prefeitura. Desde então, foram demolidos outros cinco imóveis da região que estavam com risco de desabamento.
A investigação do caso na Polícia Civil pediu a prisão de suspeitos da construção e venda de prédios na região. José Bezerra de Lima, conhecido como Zé do Rolo, Rafael Gomes da Costa e Renato Siqueira Ribeiro. Rafael foi preso no dia 17 de maio e Renato foi capturado no último dia 5. Zé do Rolo continua foragido.
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Leonardo Igrejas Esteves Borges Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Bruno Cancella foi preso em casa, no Anil. A mulher dele é funcionária da prefeitura. Na operação, armas e cheques foram apreendidos (detalhe) WhatsApp O DIA
Material apreendido na ação Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Breno Boffelli de Souza Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Material encontrado com Manuel Henrique da Silva Júnior Divulgação / Polícia Civil
Manuel Henrique da Silva Júnior Rafael Nascimento / Agência O DIA
Um dos preso da operação Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Um agente da Civil chega à delegacia com a espingarda apreendida na casa do empresário Manuel Henrique da Silva Junior Reginaldo Pimenta
Um dos presos na operação Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Um dos presos da operação Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Um dos presos da operação Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Material apreendido na operação Reginaldo Pimenta / Agência O Dia

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