Flávio Erasmo de Oliveira, 44, queria que o filho passasse por exame que comprovasse resíduo de pólvora nas mãos
Flávio Erasmo de Oliveira, 44, queria que o filho passasse por exame que comprovasse resíduo de pólvora nas mãosBeatriz Perez/ Agência O DIA
Por Beatriz Perez
Rio - O pai de um dos jovens mortos na noite de quinta-feira em ação policial no Gogó da Ema, no Complexo do Chapadão, Zona Norte do Rio, acredita que o filho mais velho, Guilherme Machado Oliveira, 20 anos, e outros três amigos tenham sido alvo de policiais do 41º BPM (Irajá) que entraram na comunidade.
O corretor de imóveis Flávio Erasmo de Oliveira, 44, teve o corpo do filho liberado sem que o pedido de perícia para detectar pólvora nas mãos do jovem tivesse sido atendido, segundo relatou. Flávio disse que ontem foi à praia com o filho e que os dois celebraram que Guilherme retornaria na segunda-feira ao Colégio Militar, onde prestou serviços militares até fevereiro, para trabalhar como civil na piscina da unidade.
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A Polícia Militar chegou a divulgar em sua conta no Twitter na noite de ontem que agentes do 41º BPM (Irajá) entraram em confronto com criminosos no morro do Gogó e apreenderam uma pistola, uma granada, rádio transmissor, munições e drogas. "Não deixando de mencionar que três indivíduos foram encontrados ao solo e socorridos ao HECC. Registro em andamento", escreveu a corporação. Para familiares, não houve confronto e os agentes plantaram drogas e celulares no local para incriminá-los. As polícias Civil e Militar ainda não retornaram à reportagem sobre as denúncias.
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"Fui na 31ª DP ver o R.O e pedir ao delegado pedir o exame de pólvora na mão. Informaram que esse pedido é de exclusividade da investigação. Os policiais militares alegaram que teve troca de tiros, então eu queria que houvesse a prova", disse Flávio no IML na tarde desta sexta-feira. "No Twitter colocaram arma, telefone, arma. Levaram os pertences do meu filho e ainda não consegui recuperar", conta o pai de Guilherme.
O corretor de imóveis diz que quer procurar advogado ou instituições para ajudar a família no caso, mas reconheceu que no momento precisa priorizar o sepultamento do filho. "Minha intenção é que os policiais que cometeram esses assassinatos sejam punidos e julgados na forma da lei. Eu tenho certeza que meu filho não estava envolvido em nada. Essa política de combate às drogas em que os policiais  toda semana entram, alegam confronto, matam e vão embora precisa acabar", criticou. "Gostaria que reconhecessem o erro. Que não colocassem armas ou drogas para se justificar. Não se pode chegar como capitães do mato, atirando em comunidade, matando. Gostaria que a instituição por sua lisura fizesse Justiça", completou.
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No laudo do IML foram constatados dois tiros em Guilherme: um na costela e outro nas costas. "Miraram neles porque foram dois tiros. Foi um nas costas. Eles deviam estar fugindo dos tiros. Não foi bala perdida. E não socorreram meu filho. Só transportaram do camburão, ele sem vida, para o hospital", contesta Flávio.
No dia da morte, Guilherme e o pai haviam ido à praia de Grumari, Zona Oeste do Rio. O jovem havia dado baixa no Colégio Militar da Tijuca, onde trabalhava como guarda-vidas, e havia recebido a oportunidade de prestar um serviço como civil na piscina da unidade a partir de segunda-feira. "O Guilherme pelos bons serviços prestados acabou sendo muito querido pelo coronel, comandante. Ele estava estudando Educação física, descobriu essa paixão no Colégio", lembra o pai emocionado.
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Quatro jovens baleados estavam juntos em bar
Segundo as famílias, quatro jovens foram alvo de disparos na ação. Três morreram e o quarto está internado no Hospital Estadual Carlos Chagas (HECC), em Marechal Hermes, também na Zona Norte.
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As famílias de Gabryel Marques de Oliveira, 21, e Guilherme, 20, pediam justiça na manhã desta sexta-feira (5) no IML. Os dois serviram no Colégio Militar da Tijuca, Zona Norte do Rio. Ambos são descritos como rapazes atléticos.
Os celulares e documentos dos jovens desapareceram. Os parentes no IML questionavam porque no registro de ocorrência os mortos ficaram sem identificação, se portavam documentos. Uma das vítimas morreu durante cirurgia no HECC, outra, atingida na perna, está internada na unidade. "Mataram meu menino. Estudante de Direito. Sonhava em ser delegado da Polícia Federal. Ele foi chamado para a atlética da faculdade, lutava, nadava", emociona-se a mãe de Gabryel, Liliane Marques de Oliveira, 44, que tem outro filho de 5 meses.

Gabryel, segundo a família, estudava Direito na Faculdade Estácio de Realengo e trabalhava como corretor de imóveis em Campo Grande, Zona Oeste do Rio.

As mortes ocorreram entre 18h e 19h, segundo as famílias.

Guilherme Machado Oliveira, 20 anos, morava com a mãe em Guadalupe. A madrasta, Fernanda Machado Oliveira, conta que o enteado, a quem chama de filho, havia dado baixa no serviço prestado no Colégio Militar havia uma semana.

No fim da tarde, o jovem saiu da casa da mãe em Guadalupe para se encontrar com três amigos, dois deles também haviam prestado serviço militar. Em seguida, o jovem iria para a casa da namorada. "No tiroteio, meu filho saiu correndo. Tomou um tiro na costela. Perdeu a vida tão jovem", lamenta Fernanda.

Denúncia de documentos furtados

As famílias dizem que os documentos e celulares dos mortos foram subtraídos. "O iPhone do meu filho, documentos e identidade do exército sumiram da carteira", diz Fernanda." A gente falava para os filhos andarem com documento, porque se você é preto e pobre, é bandido nesse país", criticou Fernanda.

"Eles entraram atirando e colocaram no chão pacotinhos e celulares", aponta a avó de Gabryel, Maria Esmeralda, de 72 anos, sobre a polícia. "A mochila do meu neto não aparece, que eu havia dado novinha e boa pra ele", acrescenta o avô Sidney de Oliveira, 70.
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A reportagem procurou a Polícia Militar e a Polícia Civil e aguarda o posicionamento sobre o caso.
O corpo de Guilherme será enterrado às 15h30, neste sábado, no Cemitério de Inhaúma.