Valmir Pereira Candido trabalhava como montador de andaimes
Valmir Pereira Candido trabalhava como montador de andaimes Arquivo pessoal
Por Thuany Dossares
Rio - "Eu estou sentindo uma dor muito grande, nunca pensei que ia passar por isso". Foi aos prantos que Valéria Pereira Candido esteve no Instituto Médico Legal (IML), de São Cristóvão, no Rio, para liberar o corpo de seu marido, na manhã deste domingo. O montador de andaime Valmir Pereira Candido, de 42 anos, foi um dos cinco mortos durante a operação de policiais militares no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, na tarde de sábado. O enterro será nesta segunda-feira, no Cemitério do Catumbi, ainda sem horário definido. O caso é investigdo pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC).

De acordo com Valéria, o marido estava em frente ao portão de casa, conversando com um amigo, quando PMs chegaram e os disparos começaram. Ela conta que Valmir era um dos diretores da Fla-Macacos, e que ele saiu para acertar os detalhes da nova camisa que iria mandar fazer para o grupo.

"Ele estava em casa quando um amigo chamou ele para conversar sobre a blusa que eles já iam mandar fazer. Não tinha nem 20 minutos que meu marido estava na rua, tem um bar em frente a minha casa. Os policiais chegaram atirando e um tiro pegou na cabeça do meu marido. Eu estava em casa e ouvi os tiros, conseguia ver os meninos caídos da minha casa. Tentava ligar para ele e ele não atendia, na hora já senti um aperto no coração e pressenti algo ruim", narrou.

Durante a manhã, Valmir tinha ido em Caxias com a esposa e a filha, que irá completar 15 anos em abril, para tratar de assuntos para a festa da adolescente. "Saímos todos juntos de manhã, ele estava empolgado com a festa de 15 anos da nossa filha e só falava nisso. Depois a gente voltou para casa, almoçou. Quando o amigo dele ligou para ele, estava até deitado no sofá tirando um cochilo depois do almoço", falou Valéria.

Muito emocionada, a esposa conta que está arrumando forças para seguir e chorou ao falar do marido. "Estou tentando arrumar forças pelos meus filhos, porque eles precisam de mim mais do que tudo. Não sei o que seria de mim agora se não fossem eles. Meu marido era uma ótima pessoa, um paizão, bom amigo, ótimo marido. Era um cara muito família, caseiro, mas também gostava de ficar na rua, não é porque a gente mora em comunidade que somos obrigados a ficar trancados dentro de casa", lamentou.
Em nota, a Polícia Civil informou que "o caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). As armas dos policiais militares que participaram da ação serão periciadas para confronto balístico. Testemunhas serão ouvidas e os agentes realizam diligências para esclarecer o caso".

PM afirma que foi atacada a tiros e moradores contestam

A Polícia Militar informou que equipe 5ª UPP/6º BPM-UPP Macacos foi atacada por criminosos armados durante policiamento na localidade conhecida como "Terreirinho", no Morro dos Macacos. "Houve revide, e após cessar o confronto, uma busca foi feita na região e a guarnição localizou cinco suspeitos feridos", disse a corporação, em nota. Todos foram socorridos para o Hospital Federal do Andaraí. "Paralelamente, como é de praxe, a Corporação instaurou Inquérito Policial Militar (IPM) para avaliar a conduta das equipes envolvidas nas ocorrências", completou a corporação.
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Morro dos Macacos - REPRODUÇÃO DE VÍDEO
Morro dos MacacosREPRODUÇÃO DE VÍDEO


Os moradores da comunidade contestam a versão e dizem que os policiais chegaram atirando. A família de Valmir diz que vai brigar para que a justiça seja feita. Eles pretendem realizar uma manifestação na Praça Barão de Drumond, em Vila Isabel.

"Mais uma vítima que eles fazem. E vai ficar por isso mesmo? Não vai, porque o meu marido não morreu em vão, ele era um trabalhador. Acabaram com a minha família, com meu sonho, acabou com tudo. Não teve confronto nenhum, eles já chegaram atirando, não deu tempo nem dos meninos se mexerem. Jogaram meu marido no camburão como se fosse um bicho, junto com os outros, e não deixaram a gente se aproximar para ajudar. Não quero dinheiro, quero que paguem pelo que fizeram, o meu marido era inocente", protestou a viúva.

De acordo com Valéria, seu marido trabalhava para uma empresa terceirizada que presta serviços para a Reduc e que a empresa, inclusive, está ajudando a família a custear o sepultamento, que deverá acontecer nesta segunda-feira, no Cemitério do Catumbi.

Na ação, os PMs apreenderam um fuzil, duas pistolas, duas granadas, farto material entorpecente, dinheiro em espécie.