Joaquim Levy na mira do PT

Apesar das críticas ao ministro da Fazenda, o partido não quer correr o risco de se tornar linha auxiliar da oposição

Por O Dia

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, fez e aconteceu na semana passada no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Na primeira intervenção, advertiu que a economia brasileira crescerá muito pouco este ano e chegou a prever recessão. Sua assessoria, porém, apressou-se em corrigir a previsão, explicando que a recessão só se configura depois de três meses seguidos de crescimento negativo. Levy disse também que a prioridade do governo Dilma é o ajuste fiscal. Em dose amarga, mas necessária para pôr a casa em ordem. Só assim, afirmou, o Brasil vai recuperar a confiança dos investidores. Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, ele repetiu a receita de “cortes em várias áreas” para equilibrar as finanças públicas, voltou a falar de crescimento zero e defendeu ajustes em benefícios sociais. Como exemplo, justificou as mudanças no modelo de seguro-desemprego, que, a seu ver, está ultrapassado.

Ao se despedir do Fórum, Levy foi ainda mais taxativo: “Nós decidimos mudar. Por algum tempo, nosso crescimento foi baseado no consumo, mas estamos mudando um pouco a demanda para o lado do investimento”. Ressaltou que é preciso melhorar o ambiente de negócios e disse que ainda tem muito a ser feito, principalmente na área fiscal. O ministro da Fazenda falou exatamente o que a plateia de Davos queria ouvir. Foi aplaudido, circulou à vontade pelos corredores do Fórum e conquistou fartos elogios dos empresários e das autoridades presentes. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, após se reunir com Levy, fez questão de demonstrar sua aprovação. “Estou encantada de ver o novo ministro da Fazenda e estou encantada com o fato de ele ser um ex-funcionário do FMI. Ele é muito competente”, disse Lagarde aos jornalistas.

O bom trânsito de Levy em Davos (o evento foi esnobado pela presidente Dilma Rousseff) não surpreendeu a cúpula do PT, que também não se espantou com a visão liberal-ortodoxa do ministro da Fazenda. “A missão do Levy é mesmo de passar mel na boca do mercado financeiro. Guido Mantega já estava muito desgastado”, explicou-me um dirigente petista. Mas fez questão de adiantar que o ministro “não vai ter autonomia total”. Ele reconhece, porém, que alguns setores do PT estão decepcionados com a nova política econômica. “Todos têm direito de opinião. Não posso censurar as críticas de companheiros ao Levy”, explica o experiente membro da Executiva Nacional do partido. Em referência específica aos comentários do vice-presidente do PT, Alberto Cantalice, ao veto da correção de 6,5% na tabela do Imposto de Renda (“Foi um erro”), destaca que as críticas têm um limite: “É preciso ter cuidado para não transformar o PT em linha auxiliar da oposição”.

O petista graduado afirma que “o PT é governo mas não é boi de presépio”. E cobra da equipe econômica mais diálogo, lembrando que a CUT sequer foi ouvida sobre as mudanças na Previdência e no seguro-desemprego. “Não houve consulta prévia e isso não é o ideal”. Apesar da cautela, corre dentro do PT uma versão curiosa. O novo ministro da Fazenda tem a missão de aplicar o remédio amargo e corrigir o rumo da economia. Assim que cumprir sua tarefa, será substituído por economista afinado com as teses desenvolvimentistas do PT e da própria Dilma Rousseff. Será verdade ou mero desejo dos petistas que estão atirando em Joaquim Levy?

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