Agricultores criticam política ambiental criada por Marina Silva

Em Xapuri, posseiros reclamam das multas por desmatamento aplicadas pelo Ibama

Por O Dia

Acre - Espetada no sudeste do Acre, a pequena cidade de Xapuri ganhou fama internacional desde que, em 1988, Chico Mendes foi assassinado ali por sua luta contra o desmatamento. Tornou-se, então, a capital brasileira da resistência ambiental. Vinte e seis anos depois, o lugarejo volta a ter importância no cenário político nacional. Não pelos poucos votos de seus 14 mil habitantes, mas pela simbologia que carrega, especialmente para uma das candidatas à Presidência: Marina Silva. Paradoxalmente, nessa região onde a presidenciável do PSB forjou a fama de defensora do meio ambiente, os posseiros a acusam de implantar, em sua passagem pelo governo federal, uma política ambiental que inviabiliza a sobrevivência dos pequenos agricultores. Vários deles foram multados em R$ 70 mil pelo manejo da terra.

A agricultora Maria Rosilda Teles%2C 42 anos%2C com o marido Ivaldo Luis de Almeida%2C 38 anos%2C e a filha Ana Clara%2C 9 anosJoão Laet / Agência O Dia

Uma das agricultoras multadas foi Maria Rosilda Teles, de 42 anos, que vive numa pequena propriedade da zona rural de Xapuri com o marido e a filha. Naquele pedaço de terra, ela planta milho, mandioca, arroz e outros itens que servem tanto para subsistência quanto para alimentar as galinhas, porcos, patos e vacas com que sustenta a família. Para isso, a cada ano eles têm que desmatar uma parte do terreno, pois não possuem instrumentos para recuperar o solo, que não suporta o cultivo frequente.

Por várias vezes, Rosilda e o marido, Ivaldo, tentaram conseguir em um posto do governo estadual um trator, adubo e calcário para cultivar a terra, mas não tiveram sucesso. “Não nos dão alternativa. Sem trator e os insumos não conseguimos plantar sem desmatar e se a gente desmata recebe multa.” Em dezembro passado, fiscais do Ibama estiveram em sua casa para multá-la em R$ 70 mil. “Fiquei desesperada, nem vendendo a propriedade eu teria dinheiro para pagar isso”, diz ela. “E não sei como vou fazer para sobreviver aqui.”

Casos desse tipo são numerosos, tanto em Xapuri quanto na vizinha Brasiléia. Para o presidente e a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri, José Alves, as dificuldades pelas quais estão passando os posseiros foram criadas pela política ambiental que Marina Silva concebeu quando foi ministra do Meio Ambiente, de 2003 a 2008. Ele também faz críticas ao governo de Dilma Rousseff por manter esse procedimento até hoje, mas o alvo principal das críticas é a candidata do PSB. “Ela esteve aqui ao lado de Chico Mendes, conhece nossa realidade. Não poderia criar uma política ambiental que mantém a floresta como um santuário, sem que os povos tradicionais consigam sobreviver”, critica.

Na tarde de ontem, o sindicalista recebeu na entidade o agricultor José Nogueira do Nascimento, de 47 anos, que tinha a mesma reclamação: recebeu multa de R$ 70 mil por desmatar parte de sua propriedade, com o objetivo de fazer sua plantação de subsistência. “Sou completamente contra o desmatamento, mas não nos deixam alternativa. Para plantar, temos que tirar uma parte do mato”, justifica-se. Como os outros, ele não sabe o que fazer pagar a multa aplicada pelo Ibama.

O DIA procurou a assessoria da candidata Marina Silva para responder às críticas, mas até o fechamento desta edição, às 22h30, não obteve resposta.

Do mato para a cidade

Desiludida com a multa que recebeu por desmatar para seu cultivo, a posseira Eliana Ferreira de Souza, de 45 anos, tomou uma decisão drástica: resolveu mudar-se para a região urbana de Xapuri e tentar viver do comércio. “Cresci na roça, não gosto daqui, mas não tenho escolha”, lamenta.

Agricultora Maria Rosilda Teles mostra multa de R%24 70 mil por ter descumprido regras criadas por Marina Silva como ministra do Meio AmbienteJoão Laet / Agência O Dia

Filha de seringueiros, como quase todos os posseiros da região, Eliana abriu há seis meses um pequeno mercado, o Mercantil Souza, onde vende de sandálias de dedo a biscoitos. Mas o movimento tem sido fraco. “Plantando eu conseguia uma vida melhor para mim e para minha família, mas ficou difícil.”

Agora, Eliana só volta na posse nos fins de semana, para matar a saudade. Não sabe o que fazer com o terreno, cujo valor de venda caiu drasticamente com as dificuldades de plantio.

Uma atividade em queda livre

Com 110 anos de história, a cidade de Xapuri teve por muitas décadas a atividade dos seringais como principal pilar econômico. A partir da década de 90, no entanto, a atividade dos seringalistas caiu vertiginosamente e hoje poucos vivem desse tipo de trabalho. Os terrenos antes ocupados por seringueiros são atualmente ocupados por seus filhos, que mantém pequenas culturas e criam algumas cabeças de gado para sobreviver.

Xapuri continua recebendo muitos turistas nacionais e estrangeiros que buscam saber da história da luta travada por Chico Mendes. A casa onde ele foi assassinado recebe em média 80 visitantes por dia. A fundação que leva o nome dele guarda os objetos pessoais e as homenagens que recebeu em vida e após a morte.

O tratamento que Marina Silva deu no debate da Band a Chico Mendes, com quem lutou contra os latifundiários na década de 80, foi outro motivo de críticas por parte do sindicato. “Chico nunca foi da elite, como ela disse. E ele não era um ambientalista, mas um sindicalista que lutava por melhores condições de trabalho para os seringueiros”, diz o sindicalista José Alves.

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