Bia Haddad usa dor que quase a tirou do tênis como força por medalhas no Pan

Tenista de 18 anos passou por cirurgia delicada nas costas em 2013. Em ascensão e saudável, ela agora briga por lugar no pódio em Toronto tanto na chave de simples como nas duplas

Por O Dia

Canadá - Foi uma experiência incrível. Às vezes a gente aprende pelo amor ou pela dor. Foi pela dor, mas eu aprendi."

A frase de Bia Haddad Maia, de 18 anos, simboliza o aprendizado de uma jovem promissora que, por pouco, não foi forçada a largar o sonho de ser tenista. O momento crucial ocorreu em 12 de outubro de 2013, quando precisou ser operada com emergência, menos de 24 horas depois de ter voltado dos Estados Unidos. Ela disputava um torneio em Macon, mas abandonou. Sentia muitas dores nas costas e dormência na perna direita. Estava sem nenhuma sensibilidade no pé.

Bia tem hérnia de disco, e o agravamento do problema sobrecarregou as vértebras, provocando a dormência. A cirurgia trazia um risco calculado, que poderia afetar os movimentos da perna direita. A intervenção foi um sucesso, e no dia seguinte a sensibilidade do pé estava de volta. Foram quatro meses de recuperação até o retorno às quadras, em fevereiro de 2014, no Rio Open. Teve altos e baixos e trocou de treinador - deixou Larri Passos para trabalhar com Marcus Vinicius Barbosa. Ficou mais tempo com a família em São Paulo.

Beatriz Haddad Maia é uma das 5 tenistas do Brasil em TorontoDivulgação

Mas ainda havia uma decisão a ser tomada. Saudável, ela optou pelo tênis, e agora colhe os frutos da plena recuperação fazendo uma boa temporada em 2015. Bia foi quadrifinalista do Rio Open, abandonando por lesão o jogo contra a italiana Sara Errani, elevou o nível dos torneios de seu calendário, passou do top 500 para o bloco das 150 melhores tenistas do mundo em menos de dois anos e tenta coroar sua volta por cima com medalhas para o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Toronto - ela estreia na chave de simples neste domingo, contra a chilena Fernanda Brito (331ª do mundo).

"Os sete, oito meses que muita gente diz que perdi, costumo dizer que ganhei. Com certeza. Porque voltei a ser uma Bia normal, estudar, sair com os amigos, viver em São Paulo com a família e pude ver o que realmente eu queria, decidi o que queria depois daquele tempo em que fiquei parada. Sofri muito, assistia Ana Maria Braga, Bom Dia sei lá o que, tudo o que passava na Globo. Foi muito difícil. Hoje em dia, se estou triste às vezes por causa de um jogo ou perdi alguma coisa, lembro daquele momento, lembro de mim sentada no sofá e dá vontade de pegar a raquete e treinar cinco horas", relatou a tenista brasileira, 149ª colocada no ranking mundial.

Bia Haddad não nega que tenha pensado no pior, que jamais voltaria às quadras. "Passou (pela cabeça). Eu fingia que não, mas passou. No avião, chorava muito porque não sentia o meu pé, ali foi um momento em que entrei em desespero", conta. A paulista se considera viciada em atividade física e redobrou o cuidado com o corpo após a cirurgia. "Quando eu acordo, coloco uma toalha no chão, faço todo o meu alongamento, cuido das minhas costas, dos meus ombros, tudo. Nunca se sabe, um dia eu posso torcer meu pé e ele precisa estar prevenido. Faço isso por pelo menos uma hora. As meninas até me chamam de louca, mas não sou louca, é o que eu gosto, me sinto bem."

Na Colômbia%2C o primeiro título na elite do tênis%2C ao lado de Paula GonçalvesDivulgação

Outras duas brasileiras estão na chave de simples do Pan: Gabriela Cé (241ª do mundo) e Paula Gonçalves (266ª). Uma das chances que Bia Haddad tem para chegar ao pódio em Toronto depende apenas de uma vitória. Por ser cabeça de chave número 1 do torneio de duplas, ao lado de Paula Gonçalves, o Brasil está automaticamente classificado às semifinais.

O quórum baixo ajudou. Apenas sete países inscreveram tenistas para as chaves de duplas, o que faz o torneio começar já nas quartas de final. Bia e Paula devem estrear nesta segunda-feira, contra adversárias a serem definidas. O triunfo as coloca na final, caso contrário precisarão vencer a disputa pelo bronze.

Focada em recuperar o tempo perdido, ou o tempo conquistado, como ela prefere, Bia festeja a convocação para o Pan de Toronto. "Isso aqui é um sonho para mim, Olimpíada também é um sonho, esses torneios são especiais, são diferentes, querendo ou não é por equipe, você joga pelo país, pela família, amigos, e de maneira alguma atrapalharia meu calendário. É um prazer jogar aqui, é uma oportunidade que poucos têm. Estou muito feliz e acredito que vai ser uma ótima semana."

Que ela conquiste este novo objetivo pelo amor, e não mais pela dor.

Reportagem de Thiago Rocha

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