EUA de volta à diplomacia

Acordo nuclear com o Irã pode abrir caminho para a remota solução da situação palestina

Por O Dia

Depois dos sorrisos e apertos de mão, depois da volta gloriosa do ministro das relações exteriores do Irã, Javad Zarif, à Teerã, onde foi recebido com festa nas ruas, depois do discurso entusiasmado de Barack Obama na Casa Branca, vem agora a parte mais difícil de um acordo improvável: dobrar os apologistas da guerra no Congresso americano e os dois grandes aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio, Israel e Arábia Saudita. Mas já se pode dizer que o primeiro fruto político do acordo nuclear com o Irã é o isolamento do primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu que fez de tudo, abertamente, para torpedear o processo.

Barack Obama leva esse trunfo para os livros de história. Evitou uma guerra, fechou um acordo dos mais significativos da era moderna em matéria de controle de armas e pode ter dado um passo decisivo para um futuro reatamento diplomático com um país que há 36 anos é considerado um inimigo dos Estados Unidos. Com mais da metade do segundo e último mandato já cumprido, ele sedimentou um legado. Além de ser o primeiro afro-americano a ocupar o cargo, Obama conseguiu fazer a primeira reforma importante no sistema de saúde do país, o chamado Obamacare, reatou relações diplomáticas com Cuba e fechou um acordo com os aiatolás iranianos que parecia fora de cogitaçãoque quase ninguém acreditava ser possível. Dizem os mais cínicos que agora, na reta final, ele tenta justificar o Nobel da Paz que ganhou preventivamente.

O governo americano custou a deixar para trás a crise dos reféns na embaixada americana em Teerã. Mas os iranianos também têm motivos para manter as barbas de molho. Em 1953 a CIA orquestrou um golpe de estado e derrubou o governo democrata de Mohammad Mossadegh depois que ele nacionalizou o petróleo. Uma história muito bem contada em “Os homens do Xá”, de Stephen Kinzer, ex-Correspondente do New York Times e hoje professor da Universidade Brown. Os americanos reinstituíram o Xá Reza Pahlevi no poder e ele foi derrubado em 1979 pela revolução islâmica. Durante a revolução, um grupo de estudantes invadiu a embaixada americana em Teerã e manteve 52 americanos como reféns durante mais de um ano.

Viajando com essa bagagem histórica, há dois anos representantes dos dois países deram início a uma série de negociações secretas a respeito do programa nuclear iraniano, mantido sob segredo até 2003. Conversas que só foram possíveis por conta de mudanças políticas lá e cá. Nos Estados Unidos, a era Bush e seu “eixo do mal” chegaram ao fim. Ideólogos como John Bolton (ex-Departamento de Estado e ex-Embaixador americano na ONU) foram afastados do poder. Há poucos dias Bolton ainda publicou um artigo no New York Times criticando a iniciativa diplomática. "A verdade inconveniente é que só a ação militar pode alcançar o que é necessário. Os Estados Unidos poderiam fazer um trabalho de destruição completo mas Israel, sozinha, pode fazer o que é preciso", escreveu Bolton. No Irã, a eleição do pragmático Hassan Rouhani abriu caminho para as conversas.

A maratona de negociações chegou a um entendimento básico: o Irã não poderia sair humilhado, sem vitórias. As grandes potências do outro lado da mesa precisavam de resultados concretos. Todos voltaram para casa com uma boa história para contar. O Irã pode dizer, com segurança, que não vai desmontar seu programa nuclear. As três usinas nucleares do país continuarão operando, depois de algumas modificações que as tornarão inofensivas. Barack Obama pode garantir que o Irã se submeterá às inspeções mais invasivas já levadas a cabo pela Agência Internacional de Energia Atômica e que o Irã não terá mais condições de produzir material suficiente para construir armas nucleares. Para chegar lá, o conhecimento científico de dois especialistas foi fundamental.

Quando a dinâmica das conversas se acelerou, o secretário de energia dos Estados Unidos, Ernest Moniz, um dos cientistas mais respeitados do país, foi apresentado ao ministro de energia atômica do Irã, Ali Akbar Salehi. Juntos, eles definiram os limites da capacidade nuclear que o Irã poderia manter sem ser considerado um risco. A palavra de Ernest Moniz tem peso e tranquilizou a Casa Branca. Agora, a equipe de Obama precisa explicar a deputados e senadores os detalhes de um acordo que, na verdade, ainda vai ser esmiuçado até chegar a um documento final, no dia 30 de junho. Mas os especialistas em controle de armas do mundo inteiro receberam a notícia com tanto otimismo que vai ser difícil sabotar o entendimento. Porém, com a atual composição do congresso, em Washington, tudo é possível.

Mas o acordo com o Irã abre caminho para uma possibilidade ainda mais remota e hoje considerada fora de cogitação: uma solução para a situação dos palestinos. Essa é a questão chave no Oriente Médio. Grande motivo de desavença entre os países árabes e Israel. Fonte de ressentimento e desconfiança em relação aos Estados Unidos. O isolamento de Netanyahu pode ser produtivo. Obama nunca retirou o apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel. Mas ficou claro que existem, hoje, muitos diferenças e discordâncias, o que deixa Netanyahu mais fraco.

Persas e judeus têm uma longa história de convivência fraterna e pacífica. Os Estados Unidos têm um legado de intervenções catastróficas na região (não só lá, claro!). A aposta de Obama na diplomacia, neste caso, não vai converter os John Boltons da vida, mas pode convencer os que ainda ficam na dúvida a respeito do melhor caminho a seguir e alimentar as esperanças de quem sempre apostou na solução pacífica dos conflitos como única via possível para a humanidade.

Últimas de _legado_Notícia