'Dilma substituiu o lulismo pelo isolacionismo', afirma cientista político

Em debate promovido pelo Brasil Econômico, os cientistas políticos Murilo Aragão e Ricardo Caldas avaliam como histórica a manifestação que no último domingo levou cerca de 1,5 milhão de pessoas às ruas

Por O Dia

Por Deco Bancillon, Edla Lula e José Negreiros

Brasília - Murilo Aragão, da Arko Advice, e Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB), dizem que suas expectativas eram de um volume bem menor de manifestantes. Para Caldas, o episódio terminou com dois perdedores. “Obviamente, o primeiro grande perdedor foi o governo. Mas o segundo grande perdedor foi a oposição. O próprio Aécio Neves se posicionou de forma muito fraca, muito dúbia em relação ao movimento”, aponta o professor. No entender de Aragão, o “buraco” onde o governo se encontra agora foi cavado pela própria presidenta Dilma Rousseff, que, em seu primeiro mandato teria deletado o “software lulista”.

Que avaliação é possível fazer das manifestações de domingo?

Murilo Aragão — Foi surpreendente, bem acima do esperado. Eu calculava que a adesão poderia chegar a 1 milhão de pessoas, já seria um grande sucesso. É um alerta muito sério para o governo, de que se ele não recompuser o seu diálogo social e político, poderá se ver em maus lençóis.

Ricardo Caldas — Para mim, também foi surpreendente. A presença nas ruas foi bastante superior ao que se esperava. Achei que haveria alguns casos de sucesso, no Rio, São Paulo e, talvez, Brasília, e que na maioria das outras capitais seria fraco. Mas superou as expectativas em praticamente todas as capitais. O grande perdedor não foi apenas o governo. Obviamente, o primeiro grande perdedor foi o governo, Mas o segundo grande perdedor foi a oposição. O próprio Aécio Neves se posicionou de forma muito fraca, muito dúbia em relação ao movimento. A orientação do PSDB era de que o Aécio não iria, mas apoiaria. Ficou esquisito até de explicar.

MA – A oposição ficou com medo de assumir o movimento e ser um fracasso. Se eles (da oposição) colocam o peso político em uma manifestação e ela fracassa, ninguém vai acusar o povo nem as lideranças desSes vários setores que se organizaram, como o movimento Brasil livre ou o Vem pra Rua. As pessoas vão dizer que fracassou a movimentação do PSDB a favor do impeachment. Então, entendo que eles tinham que ter muita cautela em assumir a liderança do movimento, porque o risco da perda era grande. Nenhuma revolução se faz sem ter um grande motivo. Além disso, tem que haver um líder. Essa mobilização popular não tem um grande líder. Ninguém sabe quem é o líder. Não existe um Capriles no Brasil (Henrique Capriles, líder da oposição venezuelana). É preciso personificar a oposição.

A primeira reação do governo, à noite, vem sendo criticada...

MA — Muito fraca. No caso de Eduardo Cardozo (ministro da Justiça), foi muito romântica, talvez até adequada. Mas Rossetto (Miguel, da Secretaria Geral) foi pior, procurou desqualificar as manifestações, falando que se tratava do terceiro turno. Acho que eles deveriam ter dormido um pouco nos eventos para depois, serenamente, buscar uma resposta. A resposta dada no mesmo dia acabou gerando um novo panelaço adicional. Foi estrategicamente ruim e o conteúdo acabou sendo inconveniente para o governo.

RC —Foi uma reação infeliz. O governo não deveria dar declarações no próprio domingo. O domingo era o momento de se reunir internamente e avaliar o movimento.

Que diagnóstico se faz do momento político que passamos? Em que ponto da nova história nós estamos hoje?

MA- A degradação do governo começou em 2011, quando Dilma substitui o software de governo que era o Lulismo, por um software que não funciona. O Lulismo era marcado por um amplo diálogo social, amplo diálogo empresarial, amplo diálogo político. Em torno desse amplo diálogo se acertava uma agenda mais ou menos interessante, que ia adiante. Ela herdou o sucesso do Lula. No primeiro ano, conseguiu aprovação extraordinária de quase 70%, mas tudo por conta do embalo do Lulismo. Ela substituiu o Lulismo pelo isolacionismo, pela aversão à pequena política, pela aversão ao diálogo social. Antes mesmo desta situação dramática, Dilma perdeu o dialogo com os movimentos sociais, perdeu a unanimidade das centrais sindicais, e perdeu o diálogo com a política. O que acontece hoje é um buraco cavado pelo próprio governo, que foi se isolar, errar na política fiscal e errar no diálogo político. Essas duas questões destruíram a governabilidade a ponto de colocar o governo num corner pouco visto na história recente do Brasil. A última vez foi o Collor.

Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB), e Murilo Aragão, da Arko Advice, em debate promovido pelo Brasil EconômicoGlaucio Dettmar


Quem foi às manifestações, o coxinha ou o povo? O Rossetto tinha dito que seriam os eleitores de Aécio.

RC — No meu entender, houve a presença do eleitor do Aécio e teve também muita gente despolitizada. Mas não se pode sintetizar a questão assim. É simplista dizer que eram só eleitores do Aécio e por isso são os perdedores. Um milhão e meio representa 1% do eleitorado nacional. Não se pode tratar de maneira tão trivial. Colocar 1 milhão de insatisfeitos nas ruas só porque não foi o candidato deles que ganhou, é muito simplista.

MA — Quando o governo tenta desqualificar a manifestação dizendo que é de oposicionista ou de “coxinhas”, comete um grave erro. O que há é uma insatisfação generalizada.

Há passeatas marcadas para 12 de abril, mas ainda não se sabe qual será a dimensão. É possível esperar uma maior adesão? Vai se repetir o movimento de 2013?

RC —Aquele movimento de 2013 teve dois momentos: primeiro, um ponto de crescimento, que gerou uma reação desproporcional, que gerou violência. Essa violência gerou um decréscimo do movimento, o que levou muita gente a pensar que ele tinha se esgotado. Não é verdade. O movimento não acabou. Ele apenas se organizou em função da resposta que foi dada. Esse atual corre o mesmo risco. A tendência dele é claramente pacífica. Mas, se houver a entrada de alguns grupos que têm uma linha diferente (de atuação), uma agenda diferente, até mesmo infiltrados, para gerar violência ou uma reação maior, isso pode gerar uma diminuição da ida das pessoas que não querem violência no movimento. Mas, como ele está, a tendência é se manter ou até mesmo crescer. A agenda está bem clara e bem focada: Fora Dilma; impeachment em alguns lugares, em outros não; e abaixo à corrupção.

MA — Acredito que o movimento vá crescer, talvez não em número de manifestações, mas, sim, em pressão política. Primeiro, porque a Operação Lava Jato terá novos episódios. Agora, há um desdobramento muito importante. O ex-diretor (da Petrobras) Renato Duque foi preso sob acusação de manter € 20 milhões no Principado de Mônaco. Isso é um indício de que mais más notícias virão por aí. Não só para o PT, como para todos os envolvidos. Segundo ponto. Também surgiram novas informações que davam conta que a operação (Lava Jato) está apenas começando e que o grosso das acusações ainda está por vir.

Sexta-feira também houve manifestações, mas foram bem menores...

MA — As passeatas de sexta-feira foram um fracasso completo. Primeiro, porque foram organizadas por instituições, como a CUT, que tem capilaridade, mobilização e recursos. Aliás, ela até pagou gente para participar (dos atos). E, em segundo lugar, se Rossetto disse que a manifestação do domingo foi de gente que votou no Aécio, pode-se dizer que (os atos pró-governo) foram uma tragédia. Quer dizer que a manifestação de sexta foi só de quem votou na Dilma? Cadê os eleitores dela?

RC — Eu discordo nesse ponto. Eu acho que o PT e Lula, em particular, quiseram, sim, dar uma demonstração de força. E acho até que conseguiram, não tanto pelo número de participantes. Não estava claro (antes) se eles iriam mobilizar essas pessoas, ou não. Eles estavam esperando para ver se as manifestações de domingo iriam crescer. Então, quando viram que a coisa ia virar, eles falaram: “Já que vai ter a de domingo, vamos fazer a nossa também, para marcar presença”.

Qual deverá ser o impacto de ambas as manifestações sobre a popularidade da presidente Dilma Rousseff?

RC — Acho difícil ela recuperar (a popularidade), porque as medidas que ela vai tomar este ano, principalmente na área econômica, serão todas negativas. Acho muito difícil uma reversão desse cenário complicado. Os números de desemprego vão aumentar este ano, em parte por causa do próprio desaquecimento da economia, e parte por causa da corrupção na Petrobras e pela paralisia das obras no setor de óleo e gás. Os bancos de investimento, todos, estão com previsões de queda do PIB entre 1,5% e 2%.

MA — A popularidade vai caminhar mal, até porque o noticiário é muito ruim, e onde Dilma poderia produzir boas notícias, ela não consegue. A área social é um exemplo. O desemprego aumenta. Há uma contração dos programas sociais, como o Fies. O desgaste midiático é muito ruim. O problema é que ela já está com a popularidade muito baixa e a tendência é que a situação piore ou, na melhor das hipóteses, se estabilize.

Há estimativas que falam em queda da presidenta Dilma popularidade abaixo dos 7%. Como avaliam isso?

MA— Eu não acredito que ela esteja abaixo de dois dígitos. Acredito que ela tenha um colchão, que é a base dos eleitores do PT. E também a oposição não se credenciou com um discurso socialmente confiável. Se não existisse uma soma brutal de equívocos do governo, a oposição não teria hoje qualquer chance. A oposição não se credenciou como alternativa. Outro ponto é que não existe o contraponto da liderança. Na hora em que a popularidade despenca, em geral, há um aumento da popularidade de alguém. E isso, até agora, não aconteceu.

RC — Esse é o ponto. O governo perdeu, mas a oposição não ganhou. Ninguém conseguiu capitalizar para si essa queda da aprovação do governo.

Historicamente, sempre que o governo perde aprovação, ele tem mais dificuldades de conseguir vitórias no Congresso. Mas como conciliar isso diante de uma base tão fragilizada? A presidenta Dilma terá que fazer mais concessões ao PMDB?


RC — O PMDB sempre foi um partido dividido, isso não é nenhuma novidade. A questão é que, agora, a exigência dele tende a ser maior. Por exemplo: eles pediram seis ministérios e conseguiram, mas não ficaram satisfeitos. Porque eles queriam ministérios mais fortes. Talvez agora peçam um sétimo ministério, ou um oitavo. O problema é que o PMDB diz que tem um número de votos que, na verdade, não possui, porque a base do partido é muito rachada no Congresso.

MA — O problema é mais sério, porque existe uma questão institucional e outra partidária. Institucional, porque é desejo do Congresso ser reconhecido como poder, e isso transcende a coalizão partidária. É um sentimento muito forte e que implicou na aprovação do orçamento impositivo, que deu respaldo à devolução da medida provisória da desoneração (da folha de pagamentos), e que mostra que isso pode ser feito outras vezes, porque há base constitucional para isso. A segunda questão é partidária. O governo cometeu o equívoco de fazer um simulacro de governo de coalizão, e agora está pagando o preço. Se ele não recuperar a capacidade de harmonizar a o diálogo com seus aliados ele vai acabar sofrendo mais derrotas.

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