BC muda sinal e a ficha cai

Monetariamente, o Banco Central tem em seu cardápio a opção de estancar de imediato o movimento de alta da Selic e, mantendo a taxa em 13,75% por longo período, assistir triunfante a elevação mês a mês do juro real

Por O Dia

O Banco Central manda sinais de que não está mais disposto a esperar pela boa-vontade das instituições do mercado financeiro. A autoridade iniciou na semana passada o abandono do propósito de só interromper o ciclo de alta da Selic quando finalmente os analistas concordassem em reduzir suas projeções de inflação para 2016 para os 4,5% do centro da meta. O BC parece estar cansado de insistir nesse tema. Já fez de tudo e foi incapaz de sensibilizar os economistas. Tentou, sem sucesso, desde esgrimir um discurso pesadamente monetarista até argumentar tecnicamente a respeito da baixa inércia inflacionária prevista para o ano que vem. Ao invés de aceitar as ponderações do BC e diminuir o prognóstico conservado em 5,5% há seis semanas, os agentes do mercado dedicavam-se ao esporte de apostar entre si sobre quando aconteceria a rendição do Copom ao fato inevitável de que o IPCA de 2016 jamais baixará de 5%.

O BC cansou de manter-se no cativeiro construído pelas “expectativas inflacionárias”, responsáveis por cerca de 30% do resultado efetivo da inflação. Está passando da posição de refém do mercado para a de paciente observador dos equívocos das instituições. Subitamente, o mercado deu-se conta de que o BC pode estar certo. Os indicadores de atividade e emprego divulgados na semana passada acenderam um facho nas planilhas: as projeções de inflação do mercado podem estar superdimensionadas. Como reflexo dessa iluminação instantânea, os juros começaram a desabar no mercado futuro da BM&F.

O BC desencadeou o alerta de que talvez não seja preciso levar a política monetária às últimas consequências não como uma maneira de reconhecer a inviabilidade do cumprimento de sua promessa de trazer o IPCA de 2016 ao centro. Não se trata de uma capitulação. O ciclo de alta da Selic pode se encerrar logo não porque o BC jogou a toalha. Longe de ser uma rendição, trata-se do reconhecimento da vitória: quem enxerga o estado agônico da economia com olhos isentos — não direcionados à obtenção de maiores lucros reais na renda fixa — pode concluir facilmente que as fontes primárias que se alimentam do processo inflacionário secaram. O IPCA já busca energias no seu volume morto. A inflação é hoje de custos ou proveniente de choques de oferta. O dilema empresarial é o de tentar repassar alguma coisa para os preços e ver as vendas caírem ainda mais ou assimilar o baque, reduzir o negócio ao mínimo e esperar a tormenta passar. Para quem pode, o caminho é o da exportação favorecida pelo câmbio ainda competitivo.

Monetariamente, o BC já tem em seu cardápio a opção de estancar de imediato o movimento de alta da Selic e, mantendo a taxa em 13,75% por longo período, assistir triunfante a elevação mês a mês do juro real. Congelada a Selic em 13,75%, quanto mais o acumulado de 12 meses do IPCA adentrar 2016, mais elevado será o juro real. De braços cruzados, assistirá à magnificação da eficiência da política monetária. Em sua inação, contemplará a intensificação da recessão. O IPCA para os próximos 12 meses pega seis meses de 2015 e seis de 2016. Como os analistas estão superando a crença de que a economia irá se recuperar no ano que vem — a narrativa de que o ajuste seria curto e logo forjaria as condições favoráveis ao retorno do investimento foi colocada no l<CW4>ugar que lhe cabe, a terra da fabulação —, com o passar dos meses sairá um IPCA de 2015 achatado pela contração econômica e entrará outro de 2016 amortecido pela visão de um futuro ainda sombrio. A projeção de IPCA para 12 meses, hoje em 5,99%, irá ceder continuamente enquanto subirá a estimativa de juro real, se a Selic for preservada em 13,75%. O aumento do juro real atrairá levas sequiosas de capital estrangeiro especulativo</CW>, retirando do câmbio potência inflacionária durante o inevitável processo de normalização das condições monetárias americanas.

Mercado e BC já perceberam que uma Selic de 13,75% é suficiente para ampliar a retração econômica. O principal problema econômico do país não é mais, hoje, a inflação ou o balanço de pagamentos (o câmbio realista já sinaliza uma curva descendente para o déficit em transações correntes), mas a atividade econômica. O problema crucial de hoje é o seguinte: como evitar que a economia se deprima mais ainda daqui para a frente. O declínio está se processando num movimento de bola de neve. Está sendo mais rápido e violento do que se imaginava. Nesse ambiente, ao qual se agrega uma crise política agigantada pela percepção dos parlamentares de que o governo está aquebrantado, será impossível fazer aquele ajuste fiscal capaz de, magicamente, restaurar um ambiente de crescimento. A resposta pode vir de uma política monetária investida de uma nova responsabilidade.

A ficha está caindo no pregão de juros futuros da BM&F. Os DIs desabaram sexta-feira sem se importar com a disparada do dólar. A moeda americana fechou a R$ 3,1393, em alta de 1,4%, amplificada pela cena externa de aversão a risco e também pela decisão do BC de reduzir mais um pouco a oferta de novos swaps cambiais destinados a substituir os que irão vencer em 3 de agosto. O BC iniciou julho disposto a rolar 69,84% do lote de US$ 10,675 bilhões a ser liquidado no primeiro dia útil do mês que vem, mas, na sexta, mudou o sinal e indicou a propensão de renovar apenas 56,72%. Ou seja, elevou o montante a ser resgatado de US$ 3,22 bilhões para US$ 4,62 bilhões, criando uma demanda por hedge de US$ 1,4 bilhão. Esse volume terá de buscar proteção sob a forma de operações com derivativos cambiais ou compras à vista. Como o mercado não brinca em serviço, principalmente às vésperas do plebiscito na Grécia, todo o ajuste à nova posição já foi feito na sexta-feira.

Já o pregão de DI operou focado na cena interna. Prevalece a ideia de que, qualquer que seja o desfecho da tragédia grega, o contágio ao universo dos países emergentes não será relevante. Os investidores globais já tiveram tempo suficiente para vender ativos gregos e não precisarão se desfazer de títulos emergentes para bancar prejuízos sofridos em Atenas. O DI se volta para a recessão produzida aqui mesmo e por brasileiros. O contrato com vencimento em janeiro de 2017, ou seja, o que precifica a política monetária para o ano que vem, experimentou quedas importantes neste começo de mês. Fechou a 14,02% no dia 1°, despencou para 13,82% no dia 2 e desceu a 13,72% na sexta-feira. Junto com a economia, a ficha caiu.

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