O Buda vivo está na geladeira

Bem que poderia ser criado um “Índice Dalai Lama” para medir o poder de pressão da China sobre os outros países

Por O Dia

Está cada vez mais difícil para Tenzyn Gyatso, o 14º Dalai Lama, fazer seus tours pelo mundo. Não por causa de sua idade. Ele tem 79 anos, mas goza de boa saúde. O problema é que o realinhamento geopolítico dos últimos anos, com a China alçada ao pedestal, fez com que o Dalai perca cada vez mais amigos em vários lugares do mundo. Antes era o visitante que quase todos queriam receber. O seu rosto sempre sorridente pode trazer felicidade a milhões de budistas no mundo. Mas os chefes de Estado cada vez mais sentem um frio na espinha quando sabem que o líder budista pretende visitar seus países. Ele, que é um símbolo da paz espiritual, transformou-se em sinônimo de inferno diplomático. Quem quer se indispor com o dragão chinês, a segunda maior economia do mundo?

No último dia 4 de setembro, a África do Sul negou visto a ele. O Dalai pretendia participar de um encontro mundial de Prêmios Nobel na Cidade do Cabo, em outubro. Ele ganhou o seu Nobel da paz em 1989. A negativa tem a ver com a dependência econômica do país à China, seu maior parceiro comercial. Pequim acusa o Dalai de ser “um lobo em pele de cordeiro”, um separatista tibetano vestido de monge budista.Pequim inundou a região com uma onda de migração de chineses da maioria étnica Han, que agora já superam os tibetanos.

Hoje, em todo o mundo, os países cada vez mais fecham suas portas ao monge que mora na Índia como um refugiado político. Um gráfico publicado na revista “Foreign Policy” mostra isso. O país mais obediente a Pequim é a própria África do Sul que deve à China, entre outras coisas, a sua entrada no Brics. Essa é a terceira vez em cinco anos que o governo sul-africano nega visto ao ”Buda vivo”, como é tido pelos tibetanos. O Dalai Lama havia viajado várias vezes para o país após o fim do apartheid. Em 2009 teve o visto recusado pela primeira vez. Em 2011 novamente ele não conseguiu visto para participar da festa de aniversário de 80 anos de seu amigo, o arcebispo Desmond Tutu, outro que ganhou o Nobel.

A Rússia, outro emergente do Brics, também já negou visto a Dalai. Sua disputa com o Ocidente está cada vez mais acirrada, com sanções impostas por ambos os lados. Com isso, a Rússia tem se aproximado da China mais e mais. Nenhuma surpresa, portanto, com a postura do Kremlin. Mas o caso Dalai traz tensão para o Brics porque o “lobo budista” vive no “I” do grupo, a Índia. Chegou lá em 1959, como exilado político após a invasão do Tibete pela China. O Dalai é tido pelos estrategistas do governo indiano como um “curinga na manga”. Uma carta fundamental para lidar com a rival China, com quem a Índia tem sérias disputas territoriais.

Mas algumas nações tem surpreendido. O Reino Unido, por exemplo. Em maio de 2013, o primeiro-ministro David Cameron recebeu o Dalai Lama. A China congelou sua relação com Londres e Cameron penou um ano para voltar às graças com Pequim. Para reatar, o então chanceler britânico William Hague prometeu que seu país passaria a se conscientizar sobre a sensibilidade da questão tibetana e que iria lidar com isso “respeitando as preocupações da China”.

Antes da última recusa da África do Sul em receber o Dalai, a Noruega havia sido pressionada por Pequim, em maio, por receber o visitante-problema. País escandinavo conhecido por sua abertura, política de bem-estar-social e tolerância, o governo norueguês não bateu a porta na cara do Dalai. Mas nenhum representante do governo foi recebê-lo. Justamente a Noruega, cujo parlamento nomeia o comitê que seleciona o Prêmio Nobel. A primeiro-ministra, Erna Solberg, explicou: “Vamos permanecer no freezer por um longo tempo”.

Os noruegueses não haviam esquecido a punição que sofreram em 2010, quando Liu Xiaobo, dissidente chinês, recebeu o Nobel, enfurecendo o gigante asiático. A China atingiu em cheio o interesse comercial norueguês: o salmão. Naquela época, a Noruega tinha quase que o monopólio das exportações de salmão para a China, com 92% de participação no mercado. Nos três anos seguintes, caiu para 29%. Um grande prejuízo, ainda mais considerando que o consumo de salmão na China aumenta 30% a cada ano, já que a moda de sashimi cresce na grande classe média chinesa.

Além de fazer pressão econômica para enfraquecer a influência global do líder budista, a China tenta interferir no seu processo de sucessão.Há alguns dias, Tenzyn Gyatso disse que esperava ser o último líder espiritual tibetano, dando a entender que poderia acabar com a instituição do Dalai Lama, titulo tradicional do Tibete há cinco séculos. “Hoje o Dalai Lama é muito popular. A tradição pode terminar com um Dalai Lama popular”, propôs. É uma forma de evitar uma manobra do Partido Comunista Chinês para indicar seu sucessor.

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