Raio, a fácil desculpa oficial de sempre

Iludem-se, intencionalmente ou não, os técnicos do setor elétrico do governo ao querer acreditar que um raio, e apenas isso, provocou o megablecaute de terça-feira

Por O Dia

Rio - Iludem-se, intencionalmente ou não, os técnicos do setor elétrico do governo ao querer acreditar que um raio, e apenas isso, provocou o megablecaute de terça-feira. Sinais muito mais gritantes apontam para grave quadro que fatalmente se repetirá, independentemente de tempestade de relâmpagos — o que atesta a incompetência da União, que prefere ater-se a folclores. As condições inclementes deste verão, com calor extremo e falta crônica de chuvas, são ameaça real à integridade do sistema. O consumo está alto, com as cargas batendo recorde após recorde, mas as máximas estranhamente não entram na conta das autoridades.

A presidenta Dilma Rousseff, com a expertise que acumulou quando chefiava o Ministério das Minas e Energia, sabe que a desculpa da intempérie tem alcance limitado. E demonstrou irritação com os burocratas da pasta, exigindo celeridade nos projetos de proteção e redundância do sistema elétrico, muitas vezes parados por causa de licenças ambientais que, embora necessárias, arrastam-se sabe-se lá por que motivos.

Mas contam-se outros fatores nessa equação. Especialistas divergem em relação à influência da falta de chuvas nesse cenário de “estresse líquido”. Houve a decisão — política, talvez — de não ligar as usinas termelétricas antes. Fato é que a tarifa está cara, muito por causa da desoneração imposta pelo governo, e recorrer às térmicas fatalmente trará impacto ainda maior ao preço do megawatt-hora. Hoje, opera-se por R$ 820 o MWh, valor cinco vezes maior que o preço de uma usina nova. Logo, sobrecarregam-se os reservatórios. Se tem mais água saindo e pouca chuva entrando, é óbvio que os níveis decairão rápido.

De nada adianta erguer hidrelétricas se a transmissão e a distribuição continuarem a ser o elo fraco da corrente. É possível que “curtos” mal explicados como o que detonou o apagão desta semana voltem a aterrorizar governo e população. É muito cômodo pôr a culpa num raio. Vamos ver até onde a desculpa se sustenta.

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