Milton Cunha: Um 2016 de concórdia

Somos iguais na diferença, que não nos anula ou nos torna inimigos. Nos reconhecemos em nossas humanidades

Por O Dia

Rio - Eu vinha vindo por uma calçada de Copacabana, distraído com o sol e o calor. A senhora ambulante gritou: Milton! Tava ótimo hoje na TV, adorei suas ombreiras de passarinhos. De longe sorri e disse: muito obrigado! Aí ela abria a boca emitindo algo que só eu deveria entender. Mas, olhando seus lábios bailando sem som, me intriguei. Quando ela apontou para o céu, saquei a leitura labial: Deus te proteja, Deus te ilumine. Eu apontei para cima e agradeci ao de lá. Avancei três passos, contornei os carros, voltando pelo asfalto, e disse: eu voltei para te abraçar. E nos abraçamos longamente. Ela foi misturando assuntos, mas o básico era que eu alegrava as manhãs tão tristes de um monte de gente. O mundo lá, desabando, e eu os distraindo da saúde caótica, educação terrível, impostos caros, crise de Natal, e ela me agradecendo por fazê-los sorrir.

Aí ela disse o que considero o tiro de misericórdia: eu sou evangélica, mas isto não tem nada a ver, eu gosto de você do jeito que você é. Pronto, já tenho meu conto de Natal, já tenho o espírito da fraternidade, demonstrado num abraço. Para que servem as religiões? Para libertar. Dominando o sentido de bondade, generosidade, você é igual a todo mundo, inclusive aos que professam outras fés e outros estilos de vida. Somos iguais na diferença, que não nos anula ou nos torna inimigos. Nos reconhecemos em nossas humanidades, nossas lutas. Eu diria, gracioso: estamos todos na mesma gira de umbanda, mas, no caso dela, ela fica lá na gira dela, evangélica. E girando entre contas a pagar, correria para as promoções, ginástica de dinheiros, ela queria dizer para que eu me acalmasse, que há sim bondades ladrilhadas pelas ruas, ainda que ela não fosse nossa.

Como estou vindo do maravilhoso encontro entre o Padre Fábio de Mello e a travesti (a amada Luana Muniz), tenho sentido a presença espiritual desta força em muitas coisas da vida. Aí, assistindo ao ‘Esquenta’, a bailarina de Regina Casé foi tomada de arrepiante emoção ao deparar-se com uma cantora que bradava o hino gospel ‘O Maior Troféu’. Foi um transe comovente, e sozinho no quarto caí em pranto. A moça da dança emocionadíssima e eu feliz por ela, pelo encontro, pelo programa democrático. E a primeira frase é emblemática, porque para nós, gays, é o mantra do que nos restou: pouco importa o que o mundo pense de nós, o importante é o que o meu Deus pensa de mim. Bingo. Independentemente do que faço na cama, o que pratico com meu semelhante? Era aquilo que a evangélica da calçada estava me dizendo: eu gosto de você, independentemente da sua escolha. Foi o que o padre disse: não julgo a vida que ela, a travesti, escolheu. Julgo o trabalho humanitário dela. É esta concórdia que espero de 2016!

E-mail: chapa@odia.com.br

Últimas de _legado_Opinião