As Caras do Rio: Corta! O Açougueiro cineasta

Ricardo Rodrigues é premiado em quase 30 festivais no Brasil e no exterior

Por O Dia

Rio - Entre chãs, patinhos e lagartos, a veia artística pulsou mais forte e bombeou o sangue direto para o coração. Ricardo Rodrigues, 40 anos, desafiou o rótulo de açougueiro e se transformou num cineasta respeitado, premiado em quase 30 festivais no Brasil e no exterior. Com seu projeto de cinema de guerrilha (a baixo custo), já produziu mais de 30 títulos, além de ministrar oficina de cinema para jovens carentes e presidir a Academia de Letras lá de São João Meriti, onde nasceu, cresceu e trabalha no meio das carnes e do preconceito.

Ricardo RodriguesJoão Laet / Agência O Dia

Uma ideia e força de vontade. Basta isso para ter sucesso, segundo Ricardo. “Qualquer um pode fazer filme. É só pegar um celular, uma máquina digital e ir à luta”, alega. O cinema entrou na sua vida por acaso. Estava trabalhando quando um mendigo entrou no açougue para comprar carne e foi mal recebido pelos outros fregueses. A cena gerou reflexão curiosa em Ricardo: “E se esse mendigo for na verdade um apresentador de TV, um ator, um antropólogo?”. A divagação virou conto e, 10 anos depois, ganhou formato de roteiro premiado no CineCufa e homenageado em Hollywood.

A oficina de cinema também começou “por acaso”. O grupo precisava de figuração e pediu a um menino para participar. Quando ele começou a apontar erros de continuidade, o chamaram para entrar no time, mas acabou perdido para as drogas. “Pensamos que poderíamos ajudar outros”, lembra o cineasta, que agora tem 20 alunos.

Filho de portugueses, Ricardo herdou o negócio de carnes, mas sempre preferiu escrever contos e poemas. Nunca teve apoio da família em empreitadas artísticas. Só agora, 20 anos depois, sua arte começou a render algum dinheiro e com ele, respeito. “O açougueiro tem o estereótipo de um cara rústico, mas tudo isso é bobagem. Cada um é o que é”, define. Advogado, ele já fez oficina de teatro, faculdade de cinema, curso de roteiro e participou de 110 festivais. Em alguns títulos, também atuou. Agora a demanda cresceu e ele criou uma produtora, chamada CGB Filmes, para desenvolver filmes que tenham verbas (mantendo o Cinema de Guerrilha da Baixada no projeto original de baixo custo). Um de seus filmes, o “Pegue e Pague”, está virando até videogame. “A ideia é sempre desbravar fronteiras”, resume.

Quantos moram em São João de Meriti?
São quase 500 mil habitantes. Município é conhecido como “Formigueiro das Américas”, pois sua densidade demográfica recorde.

Quando o município foi criado?
Em 1947. Antes integrava a vila de Maxabomba, atual Nova Iguaçu. Era um importante produtor de milho, mandioca, feijão e açúcar.

O que é o CineCufa?
Um festival internacional de cinema pioneiro que exibe somente produções criadas por moradores de favelas. Foi criado pela Central Única das Favelas (Cufa).

Quais os filmes mais famosos do Ricardo?
O principal é “ O Mendigo”, mas também tem “O Enterro do Anão”, “Pesque e Pague” “Gigantes da alegria”, entre outros.

Como faço para assistir alguns filmes dele?
Acesse o site www.cinemadeguerrilha.com.br. Lá também tem informações sobre o projeto e a história de Ricardo.

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