Primo de jovem morto pede justiça para que PMs não 'matem mais negros e pobres'

Familiares de moradores de Costa Barros mortos estiveram hoje na Defensoria Pública, que classificou a morte como 'uma barbárie'

Por O Dia

Rio - A Defensoria Pública do Rio recebeu nesta terça-feira familiares de dois jovens mortos em uma ação da PM em Costa Barros, Zona Norte, no último fim de semana. A reunião contou com os pais de Wesley Castro Rodrigues  e um primo de Wilton Esteves Domingos Júnior. Eles estiveram presentes para dar entrada no processo de resguardo e reparação moral e criminal por parte do estado. Na coletiva, o defensor geral, André Castro, classificou a morte dos cinco jovens por policiais militares como uma barbárie. 

Primo de uma das vítimas pede rigor nas investigaçõesDivulgação/Ascom DPRJ

"Inicialmente queremos manifestar a nossa indignação com este episódio, que ficará marcado na história do Rio de Janeiro. Esse episódio mostra que precisamos de uma reflexão imediata nas forças policiais", disse Castro. 

O primo de Wilton Esteves, uma das vítimas da execução, expressou o desejo pela condenação dos PMs. "Nossa família está arrasada com a brutalidade e a crueldade. Eles não podem sair da cadeia depois de meses para matar mais jovens negros e pobres que são mortos todo dia no brasil", desabafou Rafael Mota Gomes. 

A mãe de Wesley, Odiléia Rodrigues, declarou estar confiante para que a justiça seja feita. "Eu tenho que acreditar na punição. É meu filho único. não merecia isso. Vocês não podem imaginar o que estou sozinho. Não quero que esse crime fique impune para que outras famílias não sofram o que eu estou sentindo", desabafou.

No encontro, os defensores ressaltaram que Wesley teve passagem pela policia, contudo foi absolvido por falta de provas.

Eles contaram que um dos jovens, que seria o motorista do veículo, não morreu na hora. “Testemunhas contaram que a vítima estava viva, mas não houve tentativa de socorro. Vamos oferecer proteção para que esta pessoa deponha”, relatou o coordenador do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública, Fábio Amado.

Entenda o caso

Os cinco amigos — Roberto, 16; Carlos Eduardo, 16, Cleiton, 18; Wilton, 20, e Wesley, 20 — comemoravam o primeiro salário de Roberto e seguiam num Palio, na noite de sábado, quando quatro PMs cravaram o veículo de tiros. O grupo ainda é acusado de plantar pistola junto aos meninos.

“Foi uma ação trágica e desnecessária. Nada justifica uma atitude dessas”, sentenciou o secretário de Segurança, José Beltrame. “É abominável uma atitude como essa de pessoas treinadas para levar a paz. Cinquenta tiros em um automóvel não é normal”, fez coro o governador Pezão. Os policiais foram presos.

Com base nas informações do Instituto de Segurança Pública, O DIA organizou o ‘ranking da morte da PM’. Atrás do Batalhão de Irajá, figura o 7° BPM (São Gonçalo). De janeiro a outubro, foram 62 mortes por intervenção policial. Depois, o 12º BPM (Niterói), com 55 mortes (mais que o dobro do apurado em 2014).

Para a cientista social e diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) da Candido Mendes, Silvia Ramos, há graves problemas estruturais na cadeia de comando da PM. “As bases não mais respondem às mudanças nos comandos. A PM se tornou ingovernável.”

O diretor-executivo da Anistia Internacional, Atila Roque, atenta para “a rotina crônica” de morte de jovens negros. “Nesse caso específico do 41º, estamos falando de um batalhão que tem longo histórico de uso extremo da força”, explicou Roque. E ele vai ao encontro da ‘ingovernabilidade’ citada por Silvia. “Como é possível esperar coerência das políticas de segurança, quando, a cada ano, as sucessivas trocas impedem a conclusão de um ciclo de gestão? Causa perplexidade.”


Últimas de Rio De Janeiro