Roubos em alta, combate em baixa

Grupamento da PM que atua nos ônibus conta com apenas 32 policiais. Especialistas sugerem medidas

Por O Dia

Rio - Enquanto os assaltos em ônibus aumentaram quase 35% no estado, no ano passado, o combate a este tipo de crime não conta com grandes reforços. É o que mostra esta oitava e última reportagem da série ‘Passageiros da Agonia’, que mapeou os pontos mais vulneráveis da Região Metropolitana. O Grupamento de Policiamento em Transporte em Ônibus Urbano dispõe apenas de 32 policiais militares para atuar em uma frota de 8.500 coletivos só na cidade do Rio.

Este tipo de roubo cresceu em todos os municípios do estado. Na Baixada Fluminense, somente em Duque de caxias, o registro foi quatro vezes superior a 2015. Já na região da Avenida Brasil, onde a alta foi de 315%, a Polícia Civil chegou a identificar uma quadrilha especializada no crime. A prisão do líder Douglas Gonzaga foi solicitada à Justiça, mas o pedido só foi deferido depois de o caso ser denunciado pelo DIA — sete semanas e dois dias após a solicitação da prisão, período em que o acusado fez mais vítimas.

Veja quais são os maiores pontos de riscoArte O Dia

O delegado responsável pela investigação, Wellington Oliveira, criticou as punições brandas para os assaltantes. “Cerca de 80% dos presos voltam para as ruas em pouco tempo. Desses, eu diria que 70% tornam-se reincidentes”.

Além do aumento dos assaltos, a violência gratuita empregada nos roubos deixa ainda mais assustados passageiros e rodoviários.

No dia 15 de outubro, um motorista da linha 451 (Engenheiro Pedreira-Central) foi baleado após o criminoso constatar a falta de dinheiro dos passageiros e do caixa do coletivo. “A viagem tinha iniciado há meia hora. Os dois passageiros que subiram usaram cartão RioCard. Quando o assaltante viu que nada tinha no caixa e que ninguém tinha objeto de valor, ele atirou na minha perna”, relatou em depoimento, na 64ªDP (Queimados).

Para socorrer o motorista, um dos passageiros conduziu o ônibus da Rodovia Presidente Dutra, na altura de Queimados, onde ocorreu o crime, até um hospital próximo. O motorista ainda se recupera da lesão e o caso está sendo investigado.

Cabines blindadas

O especialista em Segurança Pública, Vinícius Cavalcante, opina que deveriam ser criadas cabines blindadas para os motoristas, com um sistema de alerta. “Em Londres já é assim: os motoristas dirigem ‘encapsulados’. Em caso de problemas, avisam a central e a polícia cerca o ônibus”, contou.

A professora Eva Vider,mestre em Engenharia de Transporte pela UFRJ, opina que a polícia deveria ser mais dinâmica. “As blitzes impactam o trânsito. Acredito que um policiamento mais dinâmico, ostensivo, com um plano orientado, onde mais ônibus fossem revistados, reduziria o delito.”

A Fetranspor, que representa as empresas de ônibus do estado, informou há câmeras em todos os ônibus municipais do Rio e em 90% da frota do estado. A instituição informou que fornece as imagens à polícia para auxiliar no combate ao crime.

PMs serão capacitados para revista em ônibus

Entrevista com o coronel Fernando Salema, comandante do CPE

O comandante responsável pelo policiamento nas vias especiais e dentro dos ônibus, coronel Fernando Salema, afirmou que ainda este ano vai capacitar “núcleos especializados em cada batalhão na revista em ônibus”.

Ele diz que uma dificuldade encontrada é o baixo efetivo do Gptou (Grupamento de Policiamento em Transporte em Ônibus Urbano), que tem apenas 32 policiais atuando nas ruas. Para o oficial, a crise financeira do Estado impacta tanto o aumento da criminalidade nos roubos, quanto a motivação do policial — os dois grandes desafios da sua gestão, que teve início há 1 mês.

Coronel Fernando SalemaEstefan Radovicz / Agência O Dia

1. Ao que o senhor relaciona o aumento em 35% dos roubos a ônibus no Estado ? Em alguns municípios, como Duque de Caxias, o aumento foi superior em quatro vezes.

Cada região tem uma especificidade. Mas, em geral, o aumento de roubos a ônibus se deve a duas conjunturas: à crise financeira, que impacta no aumento da criminalidade, e na maior atuação da própria Polícia Militar no combate ao tráfico de drogas. Com o sufocamento do tráfico, o traficante tem que lucrar. Ele já não lucra muito com a venda de drogas. Então, incentiva o roubo de rua e em coletivos.

2. Como atua o Comando de Policiamento Especializado?

Na intermediação direta entre o Comandante-Geral da PM e os batalhões de policiamento especializado. Atualmente, são oito unidades: Batalhão Ferroviário; Batalhão de Polícia Rodoviária; Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas; Batalhão em Vias Especiais; Batalhão de Policiamento em Grandes Eventos; além dos grupamentos de cavalaria, estádios e em ônibus.

3. Em 2015, a crise financeira já começava a atingir o Rio, inclusive o pagamento de metas começou a atrasar. A Polícia também atuava no combate ao tráfico. Mesmo assim, o 22ºBPM (Maré) foi premiado com a redução em roubos em coletivos, principalmente pela atuação na Av. Brasil. Mas, em 2016, a via tornou-se uma das mais temidas...

As metas também foram alcançadas pela atuação do BPVE, do policiamento em vias especiais, que engloba a Avenida Brasil. Mas em 2016 surgiu um outro problema, que foge à atuação da polícia: obras intermináveis na via que chamou uma população de rua e formou uma cracolândia que promove esses roubos. A conjuntura mudou. Nem tudo a polícia pode fazer. A responsabilidade de cuidar desses usuários não é da PM.

4. E haverá alguma mudança no policiamento da Avenida Brasil?

A gente atua conforme a mancha criminal que o Instituto de Segurança Pública disponibiliza. Por isso é importante até a notificação dos crimes por parte da população, pois os dados são feitos em cima deles. Nas áreas com maior incidência de roubos temos o policiamento do Gptou, por exemplo, que nos últimos três meses abordou 80 ônibus por dia.

5. Como o Gptou atua? Algumas pessoas falaram que nunca viram os policiais . Quando foi criado, em 2006, as abordagens eram mais atuantes. 

É um trio que sobe e revista pessoas em atitudes suspeitas. A ação é escoltada por uma viatura. Quando foi criado o grupamento tinha 100 policiais. Hoje são 73, mas somente 32 efetivos para o trabalho. Alguns estão de licença médica, outros de férias. Além disso, a saída de policiais da corporação é grande, pelo estresse ou pela aposentadoria, o que dificulta a reposição do efetivo.

6. Também não vemos mais blitzes nas vias, mais recorrentes na época em que o Gptou foi criado. Houve alguma mudança?

As blitzes impactam muito o trânsito, param a cidade. Mas elas continuam sim, em vias secundárias.

7. Na sua gestão haverá alguma mudança? Qual o maior desafio?

Quero capacitar núcleos de revista em ônibus em cada batalhão. Assim, cada unidade terá uma espécie de Gptou. A motivação do policial para o trabalho, que ainda se mantém no meio da crise, é um dos desafios, além da redução dos roubos em ônibus.

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