Por O Dia

Em meio à confusão de versões sobre a saída de Graça Foster, uma notícia pegou de surpresa as redações na noite de terça-feira: o professor Mangabeira Unger está de volta ao comando da Secretaria de Assuntos Estratégicos, cargo que ocupou no segundo mandato de Lula. Apontado pela revista britânica “Prospect” como um dos intelectuais do ano de 2013, Unger, que estudou em Harvard, costuma provocar polêmica com suas reflexões originais sobre a realidade brasileira. Existe quem o admire muito, como o conterrâneo Caetano Veloso, mas há também aqueles que consideram suas interpretações exóticas. “Eixo” é uma das palavras mais usadas pelo professor. Seus projetos, que sempre têm eixos e sub-eixos, servirão de novo como subsídio para as decisões da Presidência da República. E projetos não vão faltar, pois Unger é uma usina de ideias.

Na volta ao Executivo, Mangabeira Unger poderá prestar um bom serviço. Do alto de seu notório saber, o professor, que é neto do líder socialista baiano Otávio Mangabeira, tem a qualificação necessária para explicar o que está acontecendo com Dilma Rousseff neste início de segundo mandato. Algo está errado. Com repetidos sinais de indecisão, a presidente não lembra nem de longe a executiva segura e eficiente dos tempos da Casa Civil. Naqueles dias de ministra todo-poderosa de Lula, Dilma recebia em seu gabinete, de calça comprida e camisa social de manga arregaçada, sem tempo para firulas, falando com firmeza e convicção sobre os projetos do Plano de Aceleração do Crescimento. Também cumpria, sem titubear, a tarefa de cobrar de seus colegas ministros o cumprimento dos cronogramas. Foi, então, que firmou a fama de ser dura no trato e mal-humorada, o que a fazia rir: “Dizem isso porque eu sou mulher. Se eu fosse homem, diriam que eu tenho pulso forte”.

Durante o primeiro mandato, a presidente correspondeu fielmente ao perfil que consolidou nos tempos de Ministério. Nos momentos mais difíceis da última campanha eleitoral, ela também pegou o touro a unha e conseguiu vencer todas as dificuldades. Nos debates com Marina Silva e Aécio Neves, não se intimidou mesmo quando houve críticas ao mau desempenho da economia brasileira. Defendeu seu governo com vigor e mostrou a energia costumeira. Por isso mesmo, causam estranheza os movimentos que se seguiram à festiva posse de 1º de janeiro. Algo está fora do eixo. E não pode haver melhor exemplo do que o episódio da saída de Graça Foster da presidência da Petrobras.

Amiga dileta de Dilma, Graça ficou no cargo muito além do recomendável. Por mais que sua trajetória profissional seja digna de elogios, ela não tinha mais condições de chefiar a maior empresa do país. Dilma, porém, insistiu em preservá-la. Resistiu até esta terça-feira, quando as duas se reuniram em Brasília. Na audiência, foi acertado que Graça deixaria a presidência da estatal após a publicação do balanço anual em março. Entretanto, ao chegar ao Rio, Graça foi pressionada pelos colegas de diretoria e aderiu ao pedido de demissão coletiva. Comunicou a decisão a Dilma por telefone. A crer nesta versão extra-oficial e considerando o silêncio oficial, fica claro que o roteiro saiu do controle da presidente Dilma. O que foge totalmente à regra. As coisas no Planalto não andam bem. E pedem um diagnóstico do professor Unger.

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