Paulinha

Por Roberto Muylaert Editor e jornalista

Apenas sorrindo, quase sem falar, ela era querida, com sua presença sempre marcante. Menina doce, bela, natural, suave, de quem só se arrancava, a custo, um sorriso encabulado. Simpática, mesmo falando pouco. Paulinha cresceu assim, meiga, delicada, bonita, plena.

Tornou-se mulher, passando sabedoria, muita, para a idade.

De repente, Paulinha está madura, quer ir para São Paulo. Surpresa: revela ambição insuspeitada de trabalhar, de dar certo, mesmo pagando o preço de morar na cidade grande, E de sair do centro da Mata Atlântica onde fora criada, tendo como coisa mais natural do mundo a cachoeira de águas cristalinas serpenteando entre pedras, bromélias, samambaias e avencas, suas irmãs gêmeas, com uma gota de orvalho em cada folha.

E lá está Paula, encarando o dever, com aptidões insuspeitadas para programas de computador, nascidas ainda na cidade pequena, ninguém sabe como.

Foi no Dia das Mães que ela viajou sozinha, para ver a mãe, mulher produtiva e atarefada, de quem tirou as virtudes profissionais que exibia em São Paulo.

Pelo celular, ela ligou de Taubaté, quando entrava no último trecho da viagem para o litoral, na estrada que conhecia tão bem. Falou com a mãe, o pai e o noivo, que também entrou suave em sua vida.

Não contava com a chuva, nem com a aquaplanagem. Paulinha trazia aquele sorriso doce nos lábios, que não iria perder nunca, quando a chuva engrossou. Pensa no chiado inoportuno que o limpador de para-brisa faz, pulsando à sua frente, na velocidade máxima que a chuva forte exige. Lá adiante, a poça se forma. Defeito da pista.

O carro, que ela dirige com cuidado, súbito sai de lado. Leve, aquaplana. Uma palavra esquisita, que se Paulinha ouvisse, daria um sorriso de banda, sua marca registrada, mais dos olhos puxados que da boca.

Foi o anjo que a chamou. Alguém lá do alto também quis chegar perto do sorriso misterioso, velado, só dela.

E lá se foi a Paula, cumprir sua última missão. Levando doçura, amor, bromélias, orquídeas, coleiros, curiós, jambos, areias brancas, aromas silvestres, águas translúcidas, doces e salgadas. Da Mata Atlântica, junto ao mar, onde sempre viveu, para o céu. Suavemente. Para sempre.

Comentários

Últimas de Opinião