Água sobra no Sul, mas ainda está em falta no Sudeste

Nem com térmicas e baixo consumo, ONS consegue conter queda de reservatórios

Por O Dia

Enquanto as usinas hidrelétricas começam a verter água na região Sul, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem tido dificuldades para poupar água nos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste, onde estão as principais caixas d’água do setor elétrico brasileiro.

A uma semana do final de junho, o volume de energia armazenada continua caindo, ainda que em ritmo menor do que o verificado no início do ano. Segundo especialistas, restrições no sistema de transmissão impedem a transferência de maiores volumes de energia do Sul para o Sudeste do país.

Segundo dados do ONS, o nível dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste chegou a 36,8% no domingo, queda de 0,6 pontos percentuais com relação ao verificado no início do mês. Para a próxima semana, o operador prevê ainda mais queda: de acordo com a última revisão do Programa Mensal de Operação, os reservatórios das regiões devem fechar o mês de junho com 36,1% de sua capacidade de armazenamento de energia. A redução dos níveis ocorre apesar das medidas operativas para poupar água; do grande uso de térmicas e da queda do consumo, provocados pela Copa do Mundo; e pelas baixas temperaturas.

No Sul, ao contrário, as fortes chuvas elevaram de maneira significativa o nível dos reservatórios este mês: no último domingo, segundo o ONS, tinham 89,04%, alta de 34,1 pontos percentuais com relação ao verificado no início do mês. O informativo diário da operação do sistema mostra que 17 usinas das bacias dos rios Iguaçu, Uruguai, Jacuí e Capivari verteram água anteontem — o que significa que, por estarem acima do limite de armazenamento, começam a desperdiçar energia. A vazão das Cataratas do Iguaçu bateram recorde no início do mês, após a abertura de comportas da usina de Itaipu.

“É uma situação muito parecida com a que ocorreu antes do racionamento de energia de 2001, quando o Sul tinha água, mas não conseguia enviar energia para o Sudeste”, diz o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Ele reconhece, porém, que foram feitas expansões no sistema de transmissão que interliga as duas regiões. “A questão é que o investimento em transmissão é caro e não seria viável dimensionar o sistema para períodos de crise”, comenta.

De fato, a capacidade de transferência subiu de 2,6 mil megawatts (MW) em 2001 para 5,8 mil MW hoje — no domingo, o ONS determinou o envio de 2 mil MW do Sul para o Sudeste, abaixo dos 3,5 mil MW previstos, por conta da demanda menor do que a esperada. Não estão previstas novas expansões no curto prazo — apenas obras de reforço para minimizar o risco de corte na transmissão, em caso de queda de uma das linhas.

As chuvas reduziram o risco de racionamento no Sudeste e no Centro-Oeste para 2,5%, conforme informou após sua última reunião o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE). Mas, embora os preços de curto prazo tenham caído, o governo mantém em alta a geração de energia por termelétricas, mais caras e com impactos imediatos sobre o caixa das distribuidoras de eletricidade. No domingo, 23,1% da geração brasileira foi de origem térmica, incluindo as usinas nucleares de Angra dos Reis.

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