A geleia do orçamento

A lógica da programação financeira do orçamento é parecida com uma geleia. É flexível, adapta-se às circunstâncias, nela cabe tudo, interpreta especialista no assunto

Por O Dia

Um número é sistematicamente repetido na Esplanada dos Ministérios, dos gabinetes do Congresso às salas de reunião dos ministérios, como ícone da gravidade da situação das contas federais: R$ 240 bilhões de restos a pagar, herança maldita da administração Mantega/Augustin. O valor assombra o senador Renan Calheiros, principal interlocutor do ministro Joaquim Levy, no Congresso, para quem os R$ 240 bilhões também são espantosos.

No entanto, para as assessorias econômicas, principalmente aquelas acostumadas às rubricas, verbas, suplementações financeiras a cifra não é um bicho papão. A contabilidade oficial já fez um trabalho de depuração das estatísticas que logo chegarão ao público, demonstrando que o número verdadeiro poderá ser bem menor do que aquele.

Dele é preciso subtrair obras que nem começaram, e portanto não precisam ser pagas. Em seguida estão aquelas que começaram, mas não foram concluídas, logo o débito é menor do que imaginava a princípio.

Há os empreendimentos que, de fato, estão prestes a serem entregues, mas podem ser cancelos, contribuindo para abater mais dinheiro que o Tesouro deveria liberar. Finalmente é preciso incluir na conta os casos que vão parar na Justiça.

A lógica da programação financeira do orçamento é parecida com uma geleia. É flexível, adapta-se às circunstâncias, nela cabe tudo, interpreta especialista no assunto. É como a política, diz, "a arte do possível". No Ministério da Fazenda ou no Congresso, o mundo não vai acabar amanhã.

O conspirador Sarney

De cada dez solenidades oficiais comandadas pela presidente Dilma, o ex-presidente e ex-senador José Sarney está presente em nove. Trata-se do político sem cargo formal na hierarquia da República mais importante do país. Isso para quem só vê Sarney ali, na foto oficial. A verdade é que, no dia em que disse estar deixando a política, fechou seu gabinete no prédio do Legislativo, mas jamais abandonou a cúpula do PMDB. Vizinho do presidente do Senado, Renan Calheiros, Sarney não perdeu uma só reunião dos cardeais peemedebistas desde o início da crise Congresso-Planalto.

Divisor de águas

O resultado da pesquisa do Ibope que será divulgado hoje servirá de referência para os dois mais importantes eventos do calendário político: as manifestações do dia 12 de abril e a votação do ajuste fiscal, em maio. Dependendo da avaliação da presidente Dilma, a população poderá voltar às ruas turbinada. No caso das medidas econômicas, o Congresso aguarda a voz dos eleitores para definir sua posição. Poucos acreditam que numa recuperação importante da difícil situação do Planalto, mas um percentual de bom e ótimo próximo de 20% já seria recebido com alívio pelo governo.

Difícil de explicar

Conhecido o resultado das contas públicas de fevereiro, os técnicos concluem que a queda da popularidade da presidente é um fenômeno ainda mais sério do que se imagina. A rejeição a Dilma aumentou justamente num período em que o governo realizou elevados gastos na área social. O Ministério de Desenvolvimento Social fez desembolsos de R$ 2,3 bilhões em comparação com R$ 1,7 bilhão no mesmo mês do ano passado. Na educação, as despesas aumentaram 43%, saindo de R$ 1,7 bilhões para R$ 2,5 bilhões em relação ao mesmo mês de 2014. As universidades estouraram seus orçamentos, mas estão em crise.

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