Entre dois fogos

Jornalistas independentes vivem numa sinuca de bico. Tucanos e petistas sentem-se no direito de atacar aqueles que não seguem sua orientação política

Por O Dia

É muito difícil escrever sobre política nos dias intolerantes de hoje. Mais ainda para profissionais que, ao longo da carreira, seguiram a tradição do “Jornal do Brasil”, de Carlos Castello Branco e Villas-Bôas Corrêa. Ali, ensinava-se que os jornalistas deviam manter o equilíbrio e opinar com imparcialidade sobre os fatos. Sem paixão e sem vestir camisas. Vivia-se sob o tacão do regime militar e havia, obviamente, questões de princípio, que funcionavam como cláusulas pétreas. A principal delas era a defesa intransigente da democracia, dos direitos humanos, da livre expressão e da liberdade de imprensa. Mesmo nos tempos de repressão, o “JB”, ao contrário de “O Globo”, dava espaço a todas as correntes de pensamento. Manteve a independência editorial, mas pagou caro por isso. Foi posto à margem da publicidade oficial e jamais conseguiu equilibrar as finanças. Hoje, sobrevive apenas uma modesta edição “online” .

Quem vem da escola do “JB” enfrenta um momento difícil. Jornalistas independentes, nos dias que correm, vivem numa sinuca de bico. De um lado, há o governo Dilma Rousseff e o PT, e, de outro, a oposição encabeçada por Aécio Neves e outros líderes do PSDB. Enquanto as duas correntes se digladiam, quem não participa da queda de braço é pressionado a tomar posição. Chega a ser curioso. Segundo pesquisa do Datafolha, divulgada ontem, 9% dos eleitores manifestam simpatia pelo PSDB e 11% preferem o PT. Portanto, observa-se empate técnico entre os dois partidos que polarizam as disputas pela Presidência desde 1994. O PT, que já foi citado por 29% dos eleitores, perde força, e o PSDB cresceu aos poucos até os atuais 9%. De qualquer forma, a soma de preferência das duas legendas chega a apenas 20%. Isso significa que 80% dos eleitores não têm qualquer preferência partidária. Ou seja, ampla maioria.

Entretanto, embora minoritários, tucanos e petistas sentem-se no direito de atacar os jornalistas que não seguem sua orientação política. Quem se mantém independente é alvo dos dois lados. Digamos que um profissional de imprensa se mostre preocupado com a situação dos presos políticos na Venezuela e resolva fazer críticas ao governo de Nicolás Maduro. Digamos que ele tenha aprovado a ida de senadores do PSDB a Caracas para checar as condições em que vivem os dirigentes da oposição em greve de fome. Certamente foi apontado por petistas furiosos como um traidor das causas bolivarianas, um reacionário a serviço do imperialismo ianque. Em suma, outra pena vendida a serviços do factoide dos políticos tucanos. O pobre coitado só quer exigir que Maduro respeite a democracia e os direitos pelos quais os futuros fundadores do PT tanto lutaram nos anos 60 e 70.

No outro campo, é natural que a imprensa dê destaque às recentes declarações do ex-presidente Lula sobre o futuro do PT e as dificuldades enfrentadas pelo governo Dilma. Apesar do nítido encolhimento, o PT está no poder. Tem a presidente da República e ocupa outros postos chaves no Executivo. Além disso, divide as preferências partidárias com o PSDB. Atreva-se, porém, um jornalista a abrir espaço para as preocupações de Lula. Imediatamente ele será alvo de uma saraivada de críticas de tucanos exaltados, que não suportam mais a presença dos petistas no Palácio do Planalto. Acham estes tucanos que os jornalistas deveriam corresponder aos seus anseios políticos. Coitado de quem ainda acredita na liberdade de imprensa. Vive entre dois fogos.

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