Companheira de Orson Welles fala sobre ele em evento no Rio

Companheira do mito da sétima arte por quase 25 anos, a atriz Oja Kodar está na cidade para participar de mostra em homenagem ao centenário do realizador de ‘Cidadão Kane’

Por O Dia

Rio - A jovem Oja Kodar tinha apenas 21 anos. O ano era 1962 e ela estava em uma boate em Zagrebe, capital da Croácia, com parte da equipe que havia chegado à cidade para filmar ‘O Processo’, adaptação do romance de Franz Kafka. Ao olhar para o lado, percebeu que o diretor, Orson Welles, havia acabado de passar em direção à saída. Apaixonada por arte e já uma atriz, lamentou não poder se aproximar para conhecer um dos maiores diretores da história do cinema. Minutos depois, ela sentiu alguém batendo nas suas costas. 

'Orson costumava me dizer que estúdios são gerenciados por advogados e eles não entendem nada de cinema'%2C diz Oja Kodar sobre o cineastaMaíra Coelho / Agência O Dia


“Era Orson. Ele disse que havia me visto na porta de um hotel e decidiu me seguir até ali. Logo em seguida, pediu meu telefone e disse que iria me ligar, o que acabou fazendo mesmo. Foi assim que tudo começou”, relembra Oja, hoje com 74 anos, sentada em um sofá nos fundos do Estação Botafogo. Companheira do cineasta nos últimos 25 anos da vida dele, ela está no Rio para participar da mostra ‘Centenário Orson Welles’, que comemora os cem anos de nascimento do realizador, completados no último dia 6.

No total, sete filmes de Welles serão apresentados até o próximo dia 20 no espaço cinematográfico da Rua Voluntários da Pátria: ‘Cidadão Kane’, ‘O Estranho’, ‘A Dama de Shanghai’, ‘Macbeth: Reinado de Sangue’, ‘Mr. Arkadin’, ‘A Marca da Maldade’ e ‘Verdades e Mentiras’. Obras que demonstram o apuro e obsessão do diretor por todos os detalhes da produção. Além do grande conhecimento dramático e cinematográfico, ele também era conhecido pelo temperamento difícil e pelo impacto que sua voz e presença física costumavam causar. Segundo Oja, nada poderia ser mais distante da realidade.

“Muita gente não acredita, mas é difícil imaginar um homem mais tranquilo, gentil e compreensivo que ele. Em casa, sempre se comportava de forma muito calma. Também era apaixonado por animais. Tínhamos muitos cães e gatos. Orson era tão obcecado pela vida dos animais que se recusava até mesmo a matar insetos. Além disso, e apesar de não parecer, era um homem muito sociável, ao contrário de mim, que sempre preferi me isolar. De certa forma, acho que isso fazia com que nos completássemos. Talvez por isso tenhamos passado tanto tempo juntos”, avalia a atriz, que fará uma palestra para o público amanhã.

É impossível dissociar o nome do realizador daquela que é considerada sua obra-prima: ‘Cidadão Kane’, longa que, mesmo hoje, quando seu lançamento já completa 74 anos, ainda aparece como maior filme de todos os tempos em diversas listas de revistas especializadas. Na produção, seu primeiro longa-metragem como diretor, ele experimentou uma liberdade criativa que nunca mais voltaria a conhecer, devido às restrições que começou a sofrer por parte dos estúdios — Welles passou o restante da carreira financiando suas próprias produções.

“Orson se transformou em um homem divido. Porque, por um lado, ele desejava que os estúdios voltassem a investir dinheiro em seus filmes. No entanto, por outro, tinha pavor de sequer imaginar a possibilidade de um executivo colocar as mãos em algo que tivesse filmado. Ele costumava me dizer que estúdios são gerenciados por advogados, e eles não entendem nada de cinema”, finaliza Oja.

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