Um outro Cabral na Marquês de Sapucaí

Apesar do esforço para mostrar o contrário, governador aparenta tristeza durante desfile na Avenida

Por O Dia

Rio - Isto não é uma tese de mestrado de Ciência Política nem tratado de Psicanálise. A questão é que o Sérgio Cabral que eu vi na madrugada de segunda-feira no Sambódromo não é o mesmo cara. Até que no desfile da Mangueira, sua escola, ele sambou, sassaricou, sorriu, brincou e cantou o samba batucando com as mãos no ar, quase malandro da Lapa. Mas nada me tira da cabeça que Cabral estava, como diria minha mãe, ‘amuado’. Triste mesmo.

O governador só apareceu na pista para ver a Mangueira. O portelense Eduardo Paes, que sambou quase toda a noite (foi embora no início do desfile do Salgueiro), cismou de virar ‘assessor de imprensa’ do colega de partido e tirava o homem de perto dos repórteres quando alguém o abordava. Um som que saiu da boca de Cabral e Paes foi um ‘ô, ô, ô, ô...” qualquer do samba mangueirense. Eu jurava que eles iam emendar ‘estamos juuuuntos...’

Cabral ao lado do filho Marco Antônio%2C que é ritmista da Mangueira e irá concorrer à vaga de deputado federalDivulgação

O que eu ainda não sabia é que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) tinha se ‘convidado’ para visitá-los em seus camarotes, mas lhe foi passada docemente a mensagem de que não seria boa ideia. Em miúdos, nem Paes, nem Cabral queriam o tucano por perto justamente quando Rui Falcão, o presidente do PT, visitava a Avenida pela primeira vez na vida, convidado pelo vice-prefeito Adilson Pires.

‘Deixa eu relaxar’

A certa altura, Cabral olhou para passistas mirins e repetiu até ter certeza de que todo mundo em volta tinha ouvido: “Eles são os filhos da Mangueira pacificada.”

Por falar em filhos, me surpreendi quando Cabral saiu em desabalada carreira bateria da Mangueira adentro. Sem nem pensar, fui no vácuo dos assessores e só parei quando entendi o que se passava. Ele foi fazer um chamego no filho Marco Antônio Neves Cabral, 22 anos, ritmista da Mangueira. Sim, o Neves é da mesma família de Aécio. E sim, o rapaz é tão apaixonado pela escola quanto o pai.

Em seguida, ele se encostou na grade de proteção e ficou quieto, só ouvindo a bateria e olhando para o filho. Marco Antônio ficou na marcação, sem parar de batucar e olhar para o pai. E eu, por um segundo, tive a impressão de que Cabral estava era querendo ficar quietinho no aconchego da bateria, onde, ele tinha certeza, ninguém o vaiaria. Tem mais. Do nada, o pai de Marco Antônio arrumou uma garrafa de água mineral, deu na boca do filho e de outros ritmistas. Admito que posso estar ainda enfeitiçada por alguma mandinga de Momo, mas acho mesmo que vai ser difícil algum governador repetir a cena.

Em algum momento, o desfile acabou e tentamos entrevistar o governador na entrada do camarote do governo do estado. Foi educado, mas declinou:

“Deixa eu relaxar um pouco.” E sumiu, indo embora logo depois da Mangueira, deixando o vice-governador, Luiz Fernando Pezão, e o vice-presidente regional do PMDB, Marco Antônio Cabral, no ‘comando’.


Marco Antônio Neves Cabral: Luta por vaga em Brasília

O filho de Cabral que já respira política tem 22 anos é o presidente nacional da Juventude do PMDB. Ele conta que se filiou ao partido do pai aos 16 anos e hoje é o segundo homem na hierarquia da legenda, abaixo do presidente regional, Jorge Picciani. Em plena Marquês de Sapucaí, o estudante que termina a faculdade de Direito no fim do ano confirmou ao DIA o que já circulava no meio político: ele quer, mesmo, ser candidato a deputado federal em outubro.

Por que não tentar a eleição a deputado estadual primeiro?

Vai ter convenção do partido em junho e eu vou colocar meu nome para me candidatar a deputado federal, mas é o partido quem decide. Na Alerj o governador Pezão ­– se Deus quiser, ganhando a eleição -, eu na Alerj poderia contribuir menos do que na Câmara Federal. Lá, acredito que a gente tem mais como melhor defender o Rio de Janeiro do que na Alerj.

Você tem ideia de quantos votos você precisa?

Com certeza mais de 50 mil. Olha eu estou pedindo voto até para parede. (risos) Estou brincando, a gente não pode pedir voto agora. Mas eu estou muito entusiasmado. Eu sou um cara que acredita na política. Acredito que o jovem de bem, a juventude que tem proposta, que tem ideias, deve entrar na política.

Como você avalia as manifestações que tomaram as ruas ano passado?

Manifestação é legítimo. A gente vive num país democrático. A gente tem que gostar de manifestação. Quem não gosta de manifestação não vive na democracia. Vai para Cuba, vai para países totalitários! Gosto de manifestação, acho importante. Agora, tudo tem que ter um limite, dentro da ordem e tem que mostrar a cara, dizendo por que você está se manifestando. A pessoa que coloca um capuz para se manifestar já cometeu um delito.

Você acha que quando as manifestações chegaram ao ‘Fora, Cabral’ havia um componente político?

Acredito que quando você faz muito bem, quando você muda de verdade algo que estava inerte, algo que estava podre... Esse estado estava podre, as instituições do Rio de Janeiro estavam podres... Então quando você coloca o dedo na ferida, quando você aponta o problema, quando você ataca ele e tenta da melhor forma possível resolver, infelizmente, grupos radicais tendem a fazer o que fizeram. É o caso de alguns partidos – não todos – de extrema esquerda. É o caso de partidos que já governaram esse estado – eles ficaram com um ódio muito grande, uma raiva muito grande.

Você acha que as notícias em torno de seu pai, citando o uso de helicóptero, por exemplo, prejudicaram a imagem dele?

O meu pai está exercendo o poder no Estado do Rio de Janeiro desde 95, quando assumiu a presidência da Alerj, com 31 anos. Então, é natural o desgaste da imagem. Mas eu não vou entrar nesses assuntos porque já foram respondidos e muito bem pelo governador. Quem trabalha no estado sabe o que era esse estado antes e o que é esse estado hoje. Não vou ficar aqui julgando nem comentando. As pessoas sabem.


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