Defesa contra o fiasco

A resposta governamental ao agravamento da crise econômica é insistir nos mesmos remédios que até agora, embora saturados de efeitos colaterais perniciosos, se mostraram inócuos

Por O Dia

Seis meses do segundo mandato de Dilma Rousseff quase já se passaram e constata-se um aumento do ceticismo. A falta de confiança nos rumos da economia é hoje maior do que era no final do ano passado. A ampliação do descrédito na capacidade de o governo corrigir os problemas ficou chocantemente nítida na divulgação sexta-feira de indicadores dissonantes. Sozinhos, já seriam trágicos por si mesmos. Combinados, revelam uma política econômica descoordenada, inábil e pouco inteligente. A inflação se acelera ao mesmo tempo em que se agrava a contração econômica. A inflação está rodando “acima do previsto” pelos analistas e a atividade sofre uma queda “mais acentuada” que a projetada por eles. O fato de os dois movimentos ocorrerem simultaneamente prova o fiasco da atual política econômica.

Os mercados de câmbio e juros futuros ficaram estarrecidos com os dados econômicos divulgados na sexta-feira. O IPCA-15 subiu 0,99% em junho, quando o mercado previa 0,85%. No acumulado de 12 meses, o indicador — irmão gêmeo precoce do índice oficial de inflação – avançou de 8,24% para 8,80%. Quem estava prevendo um IPCA acumulado em 9% este ano, já está revendo seu prognóstico para cima. No IPCA-15, os preços livres — os que teoricamente deveriam sentir os efeitos do sinistro aperto monetário ora praticado — aceleraram de 0,51% em maio para 0,86% em junho. O Banco Central sustenta o seu discurso “monetariopata” de que em hipótese alguma abandonará a perseguição dos 4,5% ao final de 2016. Significa fazer uma desinflação de 4,5 pontos percentuais em poucos meses. Vai conseguir? O passado diz que não: de abril de 2013 para cá, a Selic subiu 6,5 pontos percentuais, de 7,25% para 13,75%, e, no mesmo período, o IPCA avançou de 6,49% para 8,47%. A política monetária é letal para derrubar o PIB, mas faz cócegas na inflação.

Concomitantemente à aceleração do ritmo de alta dos preços, verifica-se intensa compressão da atividade. Na sexta-feira, o BC divulgou o seu índice de atividade. O IBC-Br de abril registrou queda de 0,84%, mais que o dobro da retração de 0,40% projetada pelos economistas. Pior: a contração de março, de 1,07%, foi revista para -1,51%. De janeiro a abril, o índice acumula baixa de 2,23% sobre idêntico período de 2014. Por fim, saíram os dados sobre o comportamento do mercado de trabalho em maio segundo o Caged. Foram destruídos 115.599 empregos no mês passado (o mercado previa poda de 70 mil), elevando para quase 279 mil vagas o saldo negativo do acumulado do ano. Pior: há uma crescente perda na renda do trabalhador, pois o salário de admissão é bem menor que o de demissão. A expectativa dos analistas é de que a destruição de empregos tende a se ampliar ao longo do ano.

O paciente está piorando, antes de melhorar, é a mensagem do governo. O mercado não acredita mais. Os movimentos de alta descritos na sexta-feira pelo dólar e pelos juros futuros foram tipicamente de defesa, de proteção contra um futuro para o qual não se vislumbra esperanças. Desgarrado da tendência de baixa externa, contra o real o dólar saltou 1,42%, cotado a R$ 3,1021. O câmbio já iniciou processo de precificação do rebaixamento da nota soberana do país. Os DIs futuros fizeram um movimento de sanfona. Sob impacto do IPCA-15, a taxa para o fim do ano que vem disparou de 13,98% para 14,11%, mas depois do Caged caiu a 14,04%, mesmo assim em alta frente aos 13,98% da véspera. A curva futura de juros chegou a embutir Selic de 14,75%, mas fechou com expectativa mais perto de 14,50%. Os economistas põem para rodar os seus modelos econométricos já com inflação este ano acima de 9%, Selic em 14,50% e queda do PIB de 2% e chegam a um IPCA de 5,7% no ano que vem. Qual taxa básica seria necessária para o BC atingir a sua fixação de 4,5%? Talvez 17%, talvez mais.

O BC está vendo um cenário diferente? O mercado saberá na quarta-feira, quando divulgar o Relatório Trimestral de Inflação (RI) referente ao segundo trimestre do ano. Mas não está ansioso por novidades. Já conhece de antemão a conclusão geral do RI: vem mais arrocho por aí. Novidades de peso podem surgir mesmo da reunião de quinta-feira do Conselho Monetário Nacional (CMN). Além da esperada alta da TJLP, de 6% para 6,5%, alguns analistas apostam que o triunvirato formado pelos ministros Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini — os atuais membros do CMN — vai reduzir a meta de inflação para 2017 e 2018, como forma de reforçar a austeridade e reconquistar a confiança do mercado. A meta central está congelada em 4,5% desde 2005.

A resposta governamental ao agravamento da crise econômica é insistir nos mesmos remédios que até agora, embora saturados de efeitos colaterais perniciosos, se mostraram inócuos. Protegidas impunemente sob o manto aconchegante do anonimato, “autoridades do governo” exercitam um bestialógico neoliberal que não ousava se expor à luz do dia desde os idos remotos de FHC. Explicitou-se o plano de manter a Selic elevada mesmo depois de o IPCA mostrar sólida convergência ao centro da meta, ou seja, haveria uma ampliação do juro real, hoje já acima de 7%, para detonar as expectativas baixistas. Tal plano, de uma arrogante estupidez, esgarçará ainda mais as já esfrangalhadas finanças públicas.

A economia parece viver hoje momento de apagão total de ideias e propostas inteligentes similar ao primeiro tempo da semifinal entre Brasil e Alemanha na Copa — o evento vexatório dos 7 a 1 cujo primeiro aniversário será comemorado no dia 8 pelos atuais campeões do mundo. Mas, ao contrário da CBF, a presidente Dilma tem a possibilidade de afinar e melhorar o time no intervalo da partida, justamente o mês de recesso parlamentar.

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