Advogado de PMs abandona plenário e julgamento do Carandiru é cancelado

Vendramini deixou o caso durante o depoimento de Arivaldo Sérgio Salgado, comandante da tropa do COE

Por O Dia

São Paulo - O julgamento do terceiro grupo de policiais militares acusados de participação no massacre do Carandiru, que resultou na morte de 111 detentos do presídio da zona norte de São Paulo, em outubro de 1992, foi cancelado na tarde desta quarta-feira depois que o advogado de defesa dos réus, Celso Vendramini, abandonou o plenário do Fórum da Barra Funda. Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, uma nova data será marcada para o julgamento.

Vendramini reclamou de não estar recebendo do juiz tratamento idêntico ao que era dado aos dois promotores, Márcio Friggi de Carvalho e Eduardo Olavo Canto Neto e deixou o caso durante o depoimento de Arivaldo Sérgio Salgado, comandante da tropa do COE (Comando de Operações Especiais).

O advogado interrompeu o interrogatório do coronel pelo promotor Canto Neto e questionou o juiz sobre a conduta do promotor, que lia um trecho de um antigo depoimento dado por Salgado sobre o caso. Como o juiz considerou que não havia problemas no procedimento de Canto Neto e na leitura do depoimento, determinou que o interrogatório prosseguisse. Irritado, o advogado reclamou que o juiz estava valorizando o Ministério Público, tirou sua toga e deixou o local do julgamento. Na saída, teve sua conduta elogiada por alguns policiais que aguardavam do lado de fora do plenário.

“O procedimento do Ministério Público é fazer perguntas à testemunha. O que o Ministério Público estava fazendo era ler depoimento do réu, longo, e no final ele perguntava o que bem entendia. O correto, em um tribunal de júri, é fazer perguntas. Ontem, inclusive, no final, fui chamado de mal-educado pelo juiz”, reclamou o advogado, na saída do fórum. “Estou percebendo que, para o Ministério Público, tudo, e para a defesa, nada”, disse ele.

Julgamento do massacre do Carandiru%2C no Fórum criminal da Barra Funda em São PauloFutura Press

Para o advogado, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) precisa tomar alguma atitude no caso. Vendramini disse que pretende continuar defendendo os policiais, mas ressaltou que o ideal é que o juiz Rodrigo Tellini não presida o próximo julgamento do Carandiru. “Vamos ver se conseguimos achar um juiz que presida o julgamento de forma imparcial. E eu vou achar”, afirmou.

Já os promotores reclamaram da atitudedo advogado e disseram que a suspensão do julgamento causa, inclusive, prejuízo financeiro público. “Calculem o prejuízo para o Estado, que teve que montar este julgamento, as despesas, o prejuízo com os jurados, que tiveram de deixar suas casas para vir para cá. É lamentável que isso aconteça”, destacou Carvalho.

“Lamentamos profundamente. Isso foi uma surpresa para nós, um absurdo. O que foi feito hoje foi realmente uma afronta, um desrespeito à lei e à sociedade em geral”, disse Canto Neto.

Os promotores disseram também que é preciso haver algum procedimento para impedir que atitudes como essa de Vendramini se repitam. “É hora de pensar em uma alguma punição mais efetiva para o profissional que tome esse tipo de comportamento. Nem o juiz nem o promotor de Justiça têm qualquer ferramenta para impedir isso”, disse Carvalho.

O Massacre do Carandiru ocorreu no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos e 87 ficaram feridos durante uma operação policial destinada a reprimir uma rebelião no Pavilhão 9.

Na primeira etapa do julgamento, em abril do ano passado, 23 policiais foram condenados a 156 anos de reclusão, cada um, pela morte de 13 detentos. Na segunda etapa, em agosto, 25 policiais foram condenados a 624 anos de reclusão, cada um, pela morte de 52 detentos que ocupavam o terceiro pavimento do Pavilhão 9.

Após esta etapa, a Justiça vai iniciar o julgamento de outros 15 policiais envolvidos no episódio. Os PMs, que pertenciam ao Grupo Ações Táticas Especiais (Gate), enfrentarão o júri no dia 17 de março.

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