Editorial: Prisão não diminui o tamanho da vergonha

É prudente poupar energias no inevitavelmente longo e penoso processo de extradição de Pizzolato, dado o mar de burocracia que separa os governos italiano e brasileiro

Por O Dia

Rio - A prisão na Itália do ex-presidente de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, um dos condenados no processo do Mensalão, foragido desde novembro, se é um tênue alento contra a impunidade, expõe de forma vexatória a negligência das autoridades que permitiram a fuga. É prudente poupar energias no inevitavelmente longo e penoso processo de extradição, dado o mar de burocracia e diplomacia que separa os governos italiano e brasileiro. Melhor gastá-las investigando a origem do dinheiro arrecadado num átimo pela internet em prol dos mensaleiros, que têm de pagar pesadas multas.

A detenção, em operação conjunta de agentes federais brasileiros e a polícia italiana, ao menos encerra a boa-vida do ex-executivo, que parecia rir da Justiça com sua clandestina viagem, engendrada muito antes de o STF decidir a sorte da turma. E o episódio é ridículo. A Polícia Federal lhe emitiu, em 2008, um passaporte em nome do irmão do mensaleiro, morto havia mais de 30 anos. A fuga, de carro, pela Argentina também mostra o quão porosas são as fronteiras brasileiras, dando a noção de que por elas passa quem quiser e com o que quiser.

O ministro Celso de Mello já advertiu ser difícil Pizzolato cumprir a pena no Brasil. Primeiro, por ter cidadania italiana; segundo, pela velada represália do governo daquele país ao caso Battisti, lá condenado por terrorismo, aqui um cidadão comum, graças ao beneplácito do então presidente Lula.

Enquanto se busca uma saída honrosa para o governo e a Justiça do Brasil no caso Pizzolato, ainda que improvável, a Polícia Federal deve concentrar esforços para apurar o estranho volume de dinheiro que os mensaleiros afirmam ter aquinhoado. O ministro Gilmar Mendes já aventou a possibilidade de lavagem ou de redistribuição de verbas do Partido dos Trabalhadores. Se a vergonha pela fuga de Pizzolato é irreversível, ainda há tempo de evitar que a ‘solidariedade’ aos presos vire mais um desrespeito à lei e aos brasileiros.

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