Moacyr Luz: Meu parceiro Aldir

Recentemente contei umas 70 músicas nossas gravadas por diferentes artistas brasileiros

Por bferreira

Rio - Nesses primeiros dias de setembro, meu parceiro Aldir Blanc completou 68 anos. A primeira música, juntos, nasceu em 1984, “Tua Sombra”, que gravei com Sivuca e Rafael Rabelo no primeiro LP da carreira, também uma pernada de tempo. Rainhas como Beth Carvalho, Leila Pinheiro, Maria Bethânia e Nana Caymmi gravaram nossos sambas, nossas canções, mas a amizade foi o verso maior. Moramos no mesmo prédio por duas décadas. O porteiro era o nosso pombo­correio, voando com fitas e papéis pelos corredores, apressando a composição pra vozes mais populares.

Criamos hábitos espontâneos aos pés da convivência, como beber um café às quatro da manhã quando o galo cantava e o céu azulava no Rio Maracanã. Aldir tem uma bolsa de courvin marrom, que também aniversariou esta semana, inseparável nas madrugadas boêmias. Nela, dependendo da temporada, se ajeitam líquidos como vodca, Jack Daniels ou uma arredondada garrafa de Matheus Rosé. Às vezes, elas se enfileiram até alcançar o Nova Capela, o último bar do balneário carioca.

Numas férias de verão, seguimos por trinta dias para a mágica península da Armação dos Búzios. Calor de fazer inveja aos fariseus, o parceiro permanecia entretido entre os 180 livros destacados pra temporada. Da cidade, só conhecia, pela janela, as andorinhas migrando pra outros mares. Salvo por uma sangria de poucas frutas, encontramos a saída até a Praia dos Ossos atrás de um Gim Tônica encorajador.

E o sol fez poente na Ferradura anunciando novas rimas na cabeça do poeta. Recentemente saiu uma bela biografia escrita pelo amigo Luiz Fernando Vianna: “Aldir Blanc — Resposta ao Tempo”, em que contei umas setenta músicas nossas gravadas por diferentes artistas brasileiros. Compomos pra uma peça encenada pelos ícones Marlene e Sergio Britto, criamos alguns temas de novela — “Coração do Agreste” e “Mico Preto” —, mas o cotidiano é insuperável.

Coisa boba. Numa casa alugada nos cafundós da Barra da Tijuca, mobília com cara de brechó familiar, havia uma cadeira preta pesando uns cem quilos. Uma tara, aproximadamente. Pegadinha simples, um pegava o violão, o outro pedia a visita pra puxar o assento pra perto — “pra ficar mais aconchegante”. O susto com o jacarandá original valia o riso da noite.

Hoje estamos mais distantes. A vida me trouxe pra Glória. O cajado permaneceu com o Vampiro da Muda, o herói dos meus sonhos de compositor. Cantamos juntos nos seus 50 anos e, peço um tempo ao fígado, o meu e o dele, pra celebrar os 70 anos, já encostando no balcão. Parabéns, Aldir!

E-mail: moaluz@ig.com.br

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