Protestos de junho de 2013 não devem se refletir nas urnas hoje

Lideranças do movimento lamentam, mas dizem que o processo de mudanças é de longo prazo

Por O Dia

Rio - Eles são jovens entusiasmados com a política. Em junho de 2013, estiveram na linha de frente dos protestos que levaram multidões às ruas. E esperavam que a mobilização, que entrou para a história, se refletisse nas urnas, com profundas mudanças — o que não deve acontecer, de acordo com as pesquisas de intenção de voto.

Frustrações, claro, são inevitáveis. Mas não há desânimo. O secundarista Raphael Godoi, de 17 anos, responsável pela convocação dos primeiros protestos das Jornadas de Junho, tem uma explicação. “Grande parte do povo acredita que faz seu papel apenas apertando o ‘confirme’ das urnas”.

Mas afirma que houve muitas vitórias e movimentos se fortaleceram. “As lutas não terminaram e não terminarão”, diz Raphael, que há dois anos saiu do time dos descontentes com a política e entrou no dos engajados em mudá-la.

Estudante de Ciências Sociais, Fabrício Silva, de 24 anos, diz que já esperava por uma eleição sem grandes mudanças. Ele acredita que um dos motivos é a atual legislação eleitoral, que faz do pleito uma disputa desigual.

Para ele, a mudança não vai acontecer enquanto não houver o fim das doações milionárias, tempo igual de rádio e TV para todos e fim da reeleição. “Se não tivermos fiscais do povo nessa reforma, não avançaremos”.

Raphael Godoi%2C Júlio Anselmo%2C Fabrício Silva e Priscila Guedes estiveram na linha de frente dos protestos que levaram milhares de pessoas às ruas em junho do ano passadoFernando Souza / Agência O Dia

FÉ NAS MOBILIZAÇÕES

Priscila Guedes, de 25 anos, candidata a deputada estadual pelo Psol, tem visão mais otimista da eleição, em relação aos amigos. “José Sarney e Sérgio Cabral não são candidatos nessas eleições”, celebra a jovem, estudante de História na Unirio. “Sabemos que, independentemente do resultados das urnas, as mobilizações vão continuar em 2015”, aposta.

Júlio Anselmo também decidiu se candidatar a deputado estadual, pelo PSTU, e faz uma reflexão sobre o papel dos partidos mais à esquerda e as urnas. Para o jovem estudante de Filosofia da UFRJ, é preciso bem mais do que protestos para mudar o país.

Para ele, dizer que o resultado eleitoral significa que junho não serviu para nada seria apressado e equivocado do ponto de vista histórico. “Estamos priorizando a classe operária e bairros populares. Se não convencermos esses setores a construir esse projeto revolucionário, jamais alcançaremos nossos objetivos”, diz.

Cientista político prevê uma nova agenda para os governantes eleitos

As Jornadas de Junho tiveram e terão, sim, impacto nas eleições. A opinião é do cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-RJ. Ele aposta que as mudanças não serão nos eleitos, mas na postura e na agenda dos que forem eleitos.

Para Ismael, o efeito será muito mais na agenda do que na renovação dos quadros. “Não se falava tanto em transporte, mobilidade urbana, em moradia, na questão dos sem-teto. Isso dará o tom dos próximos governos, bem como a questão da moralidade”, diz.

O professor acredita na reeleição de Dilma Rousseff, mas diz que votação de Marina, em quaisquer circunstâncias, também é um reflexo dos protestos do ano passado. “Se ela chegar no segundo turno, numa campanha rápida, sem estrutura, sem tempo de TV, já será uma vitória”, analisa.

Ricardo Ismael criticou o Psol pela estratégia adotada, sobretudo no Rio de e em São Paulo, lançando as candidaturas de Gilberto Maringoni (SP) e Tarcísio Motta (RJ).

Para ele, era hora de lançar nomes conhecidos, como Vladimir Safatle em São Paulo e Marcelo Freixo ou Chico Alencar no Rio. “Sem arriscar, vai continuar um partido pequeno. Não vai chegar nem a médio”, diz.

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