Nelson Vasconcelos: Suspeito não é culpado

Protegido pelo suposto anonimato da internet, o comentarista esbanja preconceito, ignorância, arrogância, violência

Por O Dia

Rio -  A gente que trabalha em jornal (e gosta!) vive se deparando com críticas dos leitores às nossas matérias, reportagens, notinhas, colunas. Não é por acaso que se costuma dizer que a primeira coisa que o jornalista perdeu com a internet foi a autoestima. Afinal, raramente alguém nos escreve para elogiar ou apenas para trocar ideias saudáveis. Nada disso. É só paulada, desqualificando o pobre do redator, que, caramba, é um ser humano como outro qualquer. Erra. Erra pra burro, mas muito menos do que parece.

Às vezes é divertido, mas há leitores que me deixam tenso em relação ao futuro deste nobre ofício. São aqueles que pregam ódio fulminante a jornalistas, fotojornalistas, cinegrafistas, etc. Eles se esquecem de que, quando precisam de intermediação junto ao poder público, é justamente a imprensa que é convocada. Vale pensar a respeito.

E existe outro tipo de comentário intrigante. É quando noticiamos algo como “suspeito é preso por assalto” ou “Polícia prende suspeito de assassinato”. Ora, escrevem os internautas furibundos, por que chamam esse animal de “suspeito”? Vocês, jornalistas, vivem protegendo esses vagabundos.

Comentários assim mostram o quanto ainda temos a aprender sobre liberdade de expressão. Quando alguém acha que o sujeito deve ser chamado de culpado é porque não entende que a culpa só é determinada por um juiz. Por questões legais, não podemos presumir nada, nem prejulgar. Só depois de o juiz bater o martelo, o suspeito vira culpado. Até então, a lei ampara o criminoso, ops, o sujeito e, como se sabe, permite mesmo que ele ganhe as ruas livre, leve e solto. Antes de se mudar o manual de redação, há que se mudar a lei...

Curioso é que essas reclamações vazias refletem um desvio perigoso: protegido pelo suposto anonimato da internet, o comentarista esbanja preconceito, ignorância, arrogância, violência. É uma combinação que só rende coisa ruim.
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A leitura de bordo desta semana é ‘A última palavra’, de Hanif Kureishi. Reforça o que comentei aqui dia desses: o mundo está cada vez mais patético. Kureishi é um ótimo retratista da nossa época de intolerância e burrice.

Email: nelson.vasconcelos@odia.com.br

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