Por bruno.dutra

Qual é o próximo passo possível no país da pena de morte: se uma vida, aqui, se paga com outra, ao menos 13 executivos graúdos da General Motors deveriam ser julgados por assassinato sob ameaça de receberem a sentença máxima administrada com injeção letal ou com a cadeira elétrica.

Assim, cada um deles pagaria pela vida abreviada de 13 pessoas, vítimas de acidentes de automóveis que poderiam ter sido evitados com o mísero investimento de 57 centavos de dólar na compra e instalação de uma pequena peça nos modelos Chevrolet Cobalt e Saturn Ion.

Não defendo a execução de ninguém. Nem dos executivos da GM. Mas não basta ir ao Congresso responder perguntas e dizer que o erro será devidamente investigado, como fez a atual CEO da empresa, Mary Barra. Verdade seja dita, Barra é filha de um ex-sindicalista da GM e assumiu o cargo máximo da empresa em janeiro deste ano.

É a primeira mulher a assumir um cargo dessa importância na indústria automobilística e teve a coragem de fazer o recall dos carros com defeito, investigar o assunto e se apresentar ao Congresso, em nome da GM, para explicar o que está acontecendo. Ela não era alta executiva da empresa quando as decisões erradas foram tomadas. Mas assumiu a dianteira do trabalho de tentar consertar o estrago.

Documentos mantidos sob sigilo durante quase uma década vieram à tona agora e foram apresentados aos congressistas norte-americanos. Eles mostram a troca de mensagens eletrônicas entre engenheiros da GM a respeito da chave de ignição fabricada pela empresa Delphi Automotive. Em 2002, a Delphi avisou a GM que a chave da peça não estava de acordo com as especificações necessárias. Ainda assim, os engenheiros da GM decidiram continuar usando a peça defeituosa. Segundo os documentos, ela custava 57 centavos de dólar.

E por que uma peça aparentemente tão insignificante poderia ser motivo de preocupação em uma empresa tão grande e tão poderosa como a GM, tão vital para o país que em 2009 o presidente Barack Obama decidiu nacionalizar a montadora temporariamente para impedir que ela quebrasse? A pequena peça podia desligar o motor do carro de repente ou impedir que os airbags inflassem na hora de um acidente. Foi assim que Laura Christian perdeu a filha de 16 anos. O airbag do Chevrolet Cobalt de Amber não funcionou quando ela sofreu um acidente.
E será que a vida de Amber valia 57 centavos?

Claro que a GM seria obrigada a gastar bem mais do que algumas frações de dólar para corrigir o erro. Na época, a empresa avaliou que gastaria cerca de US$ 1,4 milhão para consertar todos os automóveis que tinham o problema. Parece muito dinheiro. Mas é preciso colocar os números em perspectiva. Em 2013, por exemplo, a GM teve uma receita líquida de US$ 3,8 bilhões.

Do ponto de vista estritamente financeiro, US$ 1,4 milhão é uma bela quantia. Mas nem tanto para quem fatura o que a GM fatura. Mas a pergunta não é e nem pode ser essa. A empresa tem o direito de arriscar a vida do consumidor em nome da manutenção dos lucros?

Os documentos da empresa deixam muito claro que o que se passou ali foi um mero cálculo de custo-benefício. E a conclusão foi trágica. Não valia à pena a dor de cabeça. Apenas uma voz se levantou, timidamente, na direção oposta. Uma executiva da GM chamada Lori Queen comentou: “não tenho certeza se está certo esperar”. Lori parou por aí. E a decisão foi mesmo de esperar para fazer a mudança da peça em 2009. Até lá, alguns acidentes realmente aconteceram, como era de se esperar.

Em 2007, a Administração Nacional de Segurança no Trânsito pediu uma investigação na GM porque já andava desconfiada do problema. Mas durante o governo George Bush, não se podia fazer nada que incomodasse as empresas. O eufemismo usado para esse tipo de política é que o governo dever ser “business friendly”, em português, amigável com os negócios. Por isso o Departamento de Transportes barrou qualquer tentativa de investigação. A amizade com a GM não permitiria...

Irados (até agora, somente com a GM e não com a falta de fiscalização), os congressistas metralharam Mary Barra de perguntas. Nem poderia ser diferente. É um assunto ótimo para ganhar votos. Comprar briga com uma empresa grande em nome dos pequenos e indefesos consumidores. Difícil é vê-los agir coletivamente, com a mesma veemência, para barrar os ataques com drones que continuam matando inocentes no Iêmen. Qualquer hora dessa eles batem na porta dos norte-americanos para cobrar a conta pois acabaram de criar uma associação das vítimas dos drones, com a ajuda dos advogados da Reprieve, a organização sem fins lucrativos da Grã-Bretanha que entre outras coisas representa os eternos presos de Guantánamo.

No mesmo dia em que Mary Barra enfrentou os bravos e revoltados congressistas, as famílias que perderam filhos, pais, avós e amigos próximos por conta dos ataques constantes e indiscriminados dos Estados Unidos lançavam, no Iêmen, a Organização Nacional das Vítimas de Drones, a primeira do gênero no mundo. E não foi para trocar informações e chorar as mortes. Eles vão exigir mudanças e, muito provavelmente, cobrar indenizações. Primeiro, do próprio governo já que o presidente do Iêmen dá sinal verde para os ataques norte-americanos. Depois, do protagonista das mortes e do estado de terror em que vive a população.

Mas se para uma grande empresa dos Estados Unidos como a GM a vida de um consumidor norte-americano não vale 57 centavos, qual deve ser o valor que a Casa Branca atribui aos pobres e distantes moradores do Iêmen? Não me atreveria a arriscar um palpite.

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