Por bruno.dutra

Quem o viu ainda jovem no Teatro Ipanema ficou marcado por sua interpretação forte, com influência da marcação de cena do Berliner Ensemble, de Bertolt Brecht. Corriam os anos 70, vivia-se em plena ditadura militar, mas o grupo da Rua Prudente de Moraes, no qual também se destacavam Rubens Correa e Isabel Ribeiro, dava seu recado de rebeldia e liberdade em textos antológicos como “Hoje é de dia de rock”, “A China é azul” e “O arquiteto e o Imperador da Assíria”. Wilker iniciou ali sua brilhante trajetória no teatro, no cinema e na televisão. Eis as palavras de Juca de Oliveira, o maior ator do País: “José Wilker foi grande em tudo que fez.”

Apesar do sentimento de perda, é emocionante fazer reverência a um brasileiro que só nos deu motivo de orgulho. Viva Wilker! Mas enquanto a dramaturgia, mesmo num momento de luto, nos traz boas lembranças, a classe política continua a ser fonte de decepção e ceticismo.

Por mais que a opinião pública reaja e mostre indignação com a insensatez de nossos políticos, eles não se emendam. Continuam os mesmos. O mau exemplo mais recente é dado por ninguém menos que o vice-presidente da Câmara, o deputado André Vargas (PT-PR), que acaba de ser atropelado por graves denúncias.

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Antes de cair na vala comum do Parlamento, o petista havia ganhado destaque pela forma radical com que saía em defesa dos interesses do PT. Crítico contumaz dos meios de comunicação, Vargas era adepto do bateu, levou. Quando seu colega de partido Olívio Dutra apontou uma evolução histórica nas condenações do mensalão, ele afirmou que o ex-governador gaúcho também fora alvo de investigações, por desvios no Detran. Com o presidente do STF, Joaquim Barbosa, ele foi grosseiro e repetiu o punho erguido dos companheiros presos, debochando do ilustre convidado durante cerimônia no Congresso.

Agora, a zona de conforto de André Vargas virou pó. Primeiro, veio à tona sua ligação perigosa com o doleiro Alberto Youssef, envolvido na Operação Lava-Jato, da PF, e nas suspeitas de propina em contratos da Petrobras. Diante da denúncia, o petista reconheceu que teve viagem em jatinho, no valor de R$ 100 mil, paga pelo doleiro. Explicou que conhecia Yousseff há 20 anos, mas ignorava seu ramo de negócios.

Agora, sua situação ficou ainda mais delicada, com a divulgação de relatório da PF com gravações de diálogos entre ele e o amigo, que já está preso. Nas conversas, os dois tratam de contratos no Ministério da Saúde, envolvendo a Labotagem S/A Química Fina, de Yousseff. “Cara, estou trabalhando, fica tranquilo, acredite em mim. Você vai ver quanto isso vai valer tua independência financeira e nossa também”, garante o doleiro.

O vice-presidente da Câmara insiste que é vítima de “ilações”. Diz estar tranquilo e à disposição para qualquer esclarecimento “de todas instâncias que assim desejarem”. O advogado de Yousseff também nega que o cliente tenha oferecido “qualquer vantagem financeira a Vargas”. O deputado e o doleiro, pelo visto, são homens de palavra. São inocentes e trocam favores por pura amizade. Parecem até personagens de ficção, à altura de José Wilker. Só mesmo um ator da qualidade dele poderia interpretá-los.

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