Por O Dia

Nos últimos dias, tenho ouvido algumas advertências, quando falo de meus planos de passeios e viagens. A princípio, isto é bom, as pessoas estão preocupadas com a minha segurança e, mais, são gentis e generosas em me avisar de como anda a segurança do entorno dos lugares visitados. O triste é que todas as advertências são de que, no Brasil, há perigo por toda a parte. Já quando pesquisei se havia risco de viajar sozinha para o Japão, a primeira coisa que ouvi foi que, quanto à segurança, eu não me preocupasse, eu não correria riscos.

Para aproveitar o feriado esticado, resolvi colocar o motor home nas estradas. O primeiro pensamento foi fugir da Região dos Lagos, pois imaginei um grande engarrafamento, com isso, a escolha foi para a região serrana, Visconde de Mauá e arredores. Porém, com o aviso do governo, na última hora, de que a Avenida Brasil estaria fechada para obras, de domingo a quarta-feira, qualquer lugar que necessitasse da Dutra estaria descartado. Com menos opções, escolhi um camping, com boa estrutura, em Cabo Frio, no bairro do Peró.

Pergunto ao atendente do camping-pousada como chegar à praia e ele disse: “a senhora vai sozinha? o caminho mais curto e mais bonito é atravessando as dunas, mas eu não recomendo porque é muito perigoso. O segundo tem uma estrada de terra, é mais longe, também não é seguro, mas lá passam mais carros. Mas é melhor não voltar tarde”. Um outro cliente pergunta, e de ônibus, dá para ir à praia? Ele responde, a tabela dos horários dos ônibus está aí na parede, mas eles não passam no horário, depende do trânsito.

Na mesma hora, lembrei-me do meu artigo da semana passada, no qual contei o episódio em que quase fui assaltada quando atravessei a passarela do Aterro do Flamengo, para visitar o evento Rio Boat Show. No artigo, sugeri que os donos de hotéis e hostels dos bairros de Flamengo e Catete advertissem seus clientes para que não fossem passear no Aterro e só atravessassem as passarelas nas primeiras horas das manhã, quando havia muita gente no parque. Dica que eu tinha recebido de uma amiga, moradora do Flamengo e conhecedora dos perigos do parque. Agora era eu quem recebia as mesmas advertências, mesmo estando em balneário no qual eu deveria relaxar e esquecer os perrengues da cidade grande. Mas, ao contrário, todo mundo avisa, não use celular na praia, melhor não levar câmera, já que a senhora vai a pé e sozinha.

A pé e sozinha. É praticamente uma condenação. Você está condenada a ter suas escolhas de passeios bastante diminuídas se insistir em viajar sozinha. E menos opções ainda, se resolver visitar as cidades a pé. Muito diferente do que acontece em outros países.

As advertências do prestativo atendente do camping me remeteu a outras advertências. Desta vez, mais tranquilizadoras. Há 15 dias, apareceu-me uma excelente oportunidade de ter uma companhia para viajar para o Japão e como quero muito ir a este país, empolguei-me na hora. Meu receio reside no fato de que não falo inglês e tinha medo de ir para o outro lado do mundo sem falar a língua universal. Porém, minha companhia só ficará em Tokyo por dez dias e eu quis esticar a estada, para diluir um pouco o custo das passagens.

Enviei um email para uma conhecida de longa data, jornalista e correspondente no Japão, perguntando se seria muito perigoso passear e me locomover sem saber inglês e sozinha. E ela me respondeu: os japoneses normalmente também não falam inglês, mas são gentis, honestos e prestativos. Você pode ficar tranquila quanto a sua segurança. Pode andar à noite sozinha, é tranquilo andar nos metrôs a qualquer hora, e nenhum taxista vai te roubar.

Senti um alívio tão grande! Nenhuma outra dificuldade é tão grande de se conviver no exterior como identificar quais os lugares seguros. O restante a gente dá um jeito. Escolhe-se restaurantes que apresentem fotos dos pratos para facilitar a identificação. No limite da fome, um fast food de carrocinha ou uma opção de número no McDonald´s resolve. Onde há wi fi, um tradutor eletrônico ajuda. As lojas de auto serviço facilitam as compras. Mas, sobre segurança, somente os que conhecem o lugar podem nos ajudar.

Rodei a Europa de motor home. Foram poucas as vezes que precisei do inglês para me comunicar. Os campings estão preparados para receberem os visitantes. Todos eles têm alguma forma de acesso aos grandes centros, trem, metrô, ou ônibus, mesmo que eles estejam localizados distantes das atrações turísticas. E os meios de transporte, sejam quais forem, chegam na hora fixada na tabela.

Tenho pena dos turistas que visitam o Rio e as cidades ao redor. Espero que, no mínimo, os hotéis os avisem dos perigos, como fui alertada. Se vierem na Copa de motor home, pior ainda. No município do Rio de Janeiro só há um camping e é preciso ter paciência para esperar o ônibus que passa na porta. Na região dos Lagos, existem campings organizados em Cabo Frio, Búzios e Arraial do Cabo (neste último não há energia elétrica). Em todos, há dificuldade de se encontrar transporte para visitar as praias. Ou seja, se a pessoa estiver num camping, sem carro, já vai ser difícil conhecer as praias ao redor dos balneários. Se estiver sozinha, é melhor repensar se vale a pena ir, pois nem andar a pé é seguro. Outra solução é juntar mais dinheiro e ir para o exterior, onde seres sozinhos e a pé são bem recebidos.


Últimas de _legado_Notícia